Por Eça de Queirós (1925)
E a cada frase lhe caía no coração, como uma pancada surda, que o devastava. Então, vivamente, e quase rasgando o papel com a pena, escreveu a carta ao sogro, quatro palavras simples, “que encontrara sua mulher com um homem, e desejava que ele a viesse buscar, e a recolhesse. Senão ele pô-la-ia de todo o modo fora de casa, como uma meretriz, indiferente ao destino que ela tomasse”. E num post-scriptum acrescentava que ia sair da cinco às sete – e lhe pedia que aproveitasse essa ausência dele para vir buscar sua filha.
Depois meteu a carta no bolso, abotoou a sobrecasaca, passou a manga pela seda do chapéu e saiu. Na escada encontrou um rapaz, de avental branco com um cesto na mão.
— É aqui que mora o sr. Alves?
Era o empadão, o fiambre, o queijo da Serra, todas as coisas boas que le comprara. Uma onda de tristeza afogou-lhe o coração. Teve de se segurar à rampa, para não desfalecer; o rapaz olhava-o espantado.
— É de casa do Mata?
Sim, senhor – respondeu o rapaz, ainda espantado daquele senhor que lhe parecia doente.
Godofredo murmurou:
— Sobe, bate em cima.
E ficou a escutar, ouviu o rapaz tocar, a porta abrir-se, depois a voz da Margarida dizer para dentro:
— É um rapaz que traz uma empada, minha senhora.
Ele desceu as escadas, quatro a quatro, mas embaixo, como dominado pela decência grave da escada, procurou calmar-se, abotoou a sobrecasaca, passou as mãos pela face, preparando-se para passar diante dos seus vizinhos, naquele ar que o fazia estimado e respeitado.
CAPÍTULO III
À porta da mercearia defronte, felizmente estava um galego que às vezes lhe fazia recados – muitas vezes para a casa do sogro. Entregou-lhe a carta, recomendando-lhe que a entregasse em mão própria, que não esperasse a resposta. E, como conhecia a probidade daquele galego, encanecido no serviço do bairro, acrescentou:
— Tem cuidado, em mão própria, vai dinheiro, uma nota.
O velho guardou a carta nas profundidades do seio, pôr baixo da camisa.
E então, de longe, Godofredo pôs-se a seguir aquela carta.
Viu o homem entrar no prédio do sogro, um prédio de quatro andares, enxovalhado, com uma loja de trastes velhos pôr baixo. Neto morava lá no alto, onde havia um vaso na varanda. E durante uma eternidade esteve de longe vigiando a porta; o galego não descia. Então veio-lhe um terror que o sogro não estivesse em casa. Se só recolhesse à noite, se jantasse fora, não daria sinal de si senão, tarde, à noite! E ele, que havia de fazer? Errar, pelas ruas, à espera que sua mulher saísse? E isto dava-lhe uma sensação terrível de abandono, de desordem, como se para sempre tivesse acabado a regularidade das coisas. De repente, viu o galego. Tinha entregado a carta ao senhor Neto. E descera logo, não esperara mais nada. Então, Godofredo, aliviado, continuou caminhando ao acaso, e pouco a pouco os seus passos, instintivamente, fizeram o caminho de todas as manhãs, o caminho do escritório. Desceu o Chiado. Na rua do Ouro parou um momento a olhar uma pistola, na vitrine do Lebreton. E a idéia da morte atravessou-o. Mas não queria pensar nisso, agora, nem no seu duelo .Logo às sete horas, quando se recolhesse, achasse a casa vazia, então pensaria no duelo, em ajustar contas com o outro. E foi andando ao acaso. Um momento pensou em ir ao Passeio Público; mas receou encontrar o Machado. E foi pelo Terreiro do Paço, pelo Aterro, quase até Alcântara. Ia como um sonâmbulo, sem reparar na gente que acotovelava, nem na beleza da tarde de verão, que morria num esplendor de ouro vivo. E não pensava em coisa alguma: era uma ondulação de idéias, em que passavam toda a sorte de coisas, as recordações do seu namoro com Ludovina, dias de passeio que tinha feito com ela, depois a maneira como ela estava recostada no braço do outro, e com o vinho do Porto defronte: e a cada momento voltavam-lhe fragmentos das cartas dela. “Meu anjo, por que não hei-de eu Ter um filho teu?” Era a mesma coisa que ela lhe dissera com os lábios unidos ao dele, de noite, no calor do leito... E regozijava-se agora de não ter um filho daquela infame.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.