Por Camilo Castelo Branco (1889)
— “Disseste uma verdade, que é a tua condenação. Eu, se tivesse sido abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectáculo a um baile de máscaras. A desgraça não se finge, é verdade ; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa desse sorriso que te brinca nos lábios… Olha, minha amiga, há umas mulheres que nasceram para esta época, e para estes homens. Há outras que a Providência caprichosa atirou a esta geração corrompida como os imperadores romanos atiravam os cristãos ao anfiteatro dos leões. Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonizar com o teu gênio folgazão e desleixado uma hipocrisia que te vai bem num sofá de penas, onde tu recostas com um perfeito conhecimento das atitudes lânguidas das mulheres cansadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio !… És a única mulher para quem este país é pequeno. Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abades de Versalhes, e as filhas do Regente, e as Heloísas desenvoltas dos abades, e as aias da duquesa do Maine… et cetera. Isto por cá é pequeníssimo para as Frineias. Uma mulher da tua índole morre asfixiada neste ambiente pesado em que o coração, nas suas expansões românticas, encontra, quase sempre, a mão burguesa das conveniências a tapar-lhe os respiradouros… Parece que te enfadas de mim ?”
— “Não te enganas, dominó… Obsequeias-me se me não deres o incômodo
de te mandar retirar.”
— “És muito delicada, minha nobre Sofia !… Já agora, porém, deixa-me darte uma idéia mais precisa desta mulher que te enfada, e que, apesar das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá… Tens uma sincera paixão, uma saudade pungente por aquele belo capitão de cavalaria que te deixou, tão sozinha, com as tuas agonias de amante ?”
— “Que te importa ?…”
— “És cruel ! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta pergunta ?… Quantos anos tens ?…”
— “Metade e outros tantos…”
— “A resposta não me parece tua… Aprendeste essa vulgaridade com a filha do teu sapateiro ?… Ora olha : tu tens 38 anos, a não ser mentiroso o assento de batismo, que se lê no cartório da freguesia dos Mártires em Lisboa.
Aos vinte anos amavas com ternura um tal Pedro Sepúlveda. Aos vinte e cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com delírio, um tal Sebastião de Meireles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal… Como se chamava… Não me recordo.. Diz-me, por piedade, o nome desse homem, que, senão, fica o meu discurso sem o efeito do drama… Não dizes, má ?… Ai !…
Eu tenho aqui a mnemônica…”
Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou ver um anel… Sofia estremeceu, e corou até às orelhas.
— “Já te recordas ?… Não cores, minha querida amiga… Que não fica bem ao teu caráter de mulher que conhece o mundo pela face positiva… Deixa-me agora arredondar o período, como dizem os literatos… Ora tu, que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres fingir, debaixo desse vestido negro, um coração varado de saudades e órfão de consolações ?… Adeus, minha bela hipócrita…”
Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.
CAPÍTULO IV
Eram três horas.
Henriqueta disse que se retirava, depois de vitimar com seus ligeiros, mas pungentes gracejos, alguns daqueles muito que provocam o sarcasmo só com a presença, só com o vulto corporal, só com a sensaboria de um remoque parvo e pretensioso. O Carnaval é uma exposição anual destes infelizes.
Carlos, ao ver que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto irritara a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até com ressentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua felicidade de algumas horas.
— “Eu não me arrependo” — disse ele — “de ter sido a voluntária testemunha de teus desforços… Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria… Ouvi-te, iludi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu coração… Estou recompensado de mais… Ainda assim, Henriqueta, eu não tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessandote um desejo de conhecer-te que não posso iludir… Este desejo vais-mo tu convertendo numa dor; e será logo uma saudade insuportável, que te faria compaixão se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo impossível. Se tu mo não dizes, que me dirá o teu nome ?”
— “Não sabes que sou Henriqueta ?”
— “Que importa ? E serás-tu Henriqueta ?”
— “Sou… Juro-te que sou…”
— “Não basta isto… Ora diz-me… Não sentes a precisão de ser-me grata ?”
— “A quê, meu cavalheiro ?”
— “Grata ao melindre com que te tenho tratado, grata à delicadeza com que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencível que me manda ajoelhar-te… Será nobre zombar de um amor que involuntariamente fizeste nascer?”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.