Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Mas como o Melchior lhe afiançara que a “chuvinha só viria para a tarde”, Jacinto decidiu ir antes de almoço à Corujeira, onde o Silvério o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos, e ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse à prova de água. Não andáramos porém meio caminho, quando, depois dum arrepio nas árvores, um negrume carregou e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus, enrodilhados na borrasca. Chamados pôr uma grande voz, que se esganiçava no vento, avistamos num campo mais alto, à beira dum alpendre, o Silvério, debaixo dum guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num instante alargara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançara num desespero todo o arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabitável.

Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que Silvério nos esperava à beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Príncipe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:

-Apre! que ferocidade!

Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera duma serra tão amável e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, só lhe oferecera doçura e sombra, e suaves céus, e quietas ramagens, e murmúrios discretos de ribeirinhos mansos.

-Santo Deus! Vêm muitas vezes assim, estas borrascas?

Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:

-Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor! Mas há de V. Exª. ver no Inverno, se V.Exª se agüentar pôr cá! Então é cada temporal, que até parece que os montes estremecem!

E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo de manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapéu de chuva e calçara as suas grandes botas.

-Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a figueira... Mas a mulher tem estado doente, já há dias... e como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Meti para o alpendre... E o senhor D. Jacinto é voltar para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de água.

Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, dum céu ainda negro, onde o vento se calara; e para além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.

Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, passando a mão pensativa sobre o negrume das suas barbas, refletia, emendava os seus prognósticos:

-Pois, não senhor... Ainda estia! Nunca pensei. É que tornejou o vento.

O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ângulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu Príncipe se sentara, enrolando um cigarro, confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos três nos calávamos, naquela contemplação inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e retém olhos e almas.

-Ó Sr. Silvério – murmurou lentamente o meu Príncipe -, que é que o senhor esteve aí a dizer de bexigas? O procurador voltou a face surpreendido:

-Eu, Exmo Sr?... Ah sim! A mulher do Esgueira! É que pode ser, pode ser... Não imagine V. Exª que faltam pôr cá doenças. O ar é bom. Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve, mas às vezes, se V.Exª me dá licença, vai pôr aí muita maleita..

-Mas não há médico, não há botica?

O Silvério teve o riso superior de quem habita regiões civilizadas e bem providas...

-Então não havia de haver? Pois há um boticário, em Guiães, lá quase ao pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hem, Sr. Fernandes? Homem capaz. Médico é o Dr. Avelino, daqui a légua e meia, nas Bolsas. Mas já V. Exª vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram eles para pão, quanto mais para remédios!

E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a prometedora claridade não se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara pôr me sentar na ponta dum madeiro, enervado, já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes úmidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6768697071...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →