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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Apressados, enrolando o cigarro, deixamos logo o palácio de Herodes, por uma passagem que o douto Topsius conhecia, lôbrega e úmida, com fendas gradeadas de onde vinha um canto triste de escravos encarcerados... Saímos a um terreiro, abrigado pelo muro de um jardim todo plantado de ciprestes. Dous dromedários deitados no pó ruminavam, junto de um montão de ervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do templo, quando, sob as ruínas de um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado em torno de um essênio, cujas mangas de alvo linho batiam o ar como as asas de um pássaro irritado.

Era Gade, rouco de indignação, clamando contra um homem esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia e balbuciava:

- Não fui eu, não fui eu...

- Foste tu! - bradava o essênio, estampando a sandália na terra. - Conheço-te bem. Tua mãe é cardadeira em Cafarnaum, e maldita seja pelo leite que te deu!...

O homem recuava, baixando a cabeça, como um animal encurralado à força:

- Não fui eu! Eu sou Refraim, falho de Eliézer, de Ramá! Sempre todos me conheceram são e forte como a palmeira nova!

- Torto e inútil eras tu como um sarmento velho de vide, cão e filho de um cão! - gritou Gade. - Vite bem... Foi em Cafarnaum, na viela onde está a fonte, ao pé da sinagoga, que tu apareceste a Jesus, Rabi de Nazaré! Beijavas-lhe as sandálias, dizias: "Rabi, cura-me! Rabi, vê esta mão que não pode trabalhar!" E mostravas-lhe a mão, essa, a direita, seca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no sabá; estavam os três chefes da sinagoga, e Elzéar, e Simeão. E todos olhavam Jesus para ver se ele ousaria curar no dia do Senhor... Tu choravas, de rojo no chão. E por acaso o Rabi repeliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah cão, filho de um cão! O Rabi, indiferente às acusações da sinagoga, e só escutando a sua misericórdia, dissete: "estende a mão!" Tocou-a, e ela reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céu! Estava sã, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.

Um murmúrio de enlevo correu entre a multidão maravilhada pelo doce milagre. E o essênio exclamava, com os braços trêmulos no ar:

- Assim foi a caridade do Rabi! E estendeu-te ele a ponta do manto, como fazem os rabis de Jerusalém, para que lhe deitasses dentro um ciclo de prata? Não. Disse aos seus amigos que te dessem da provisão de lentilha... E tu largaste a correr pelo caminho refeito e ágil, gritando para o lado da tua casa: "Oh mãe, oh mãe estou curado!..." E foste tu, porco e filho de porco, que há pouco no Pretório pedias a cruz para o Rabi e gritavas por Barrabás! Não negues, boca imunda; eu ouvi-te; estava por trás de ti e via incharem-te as cordoveias do pescoço, com o furor da tua ingratidão!

Alguns, escandalizados, gritavam: "Maldito! Maldito!" Um velho, com justiceira gravidade, apanhara duas grossas pedras. E o homem de Cafarnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:

- Não fui eu, não fui eu... Eu sou de Ramá!

Gade, furioso, agarrou-o pelas barbas:

- Nesse braço, quando o arregaçaste diante do Rabi, todos te viram duas cicatrizes curvas, como de dous golpes de foice!... E tu vais mostrá-las agora, cão e filho de um cão!

Despedaçou-lhe a manga da túnica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas mãos de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lívidas no pêlo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo - que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Cafarnaum com apupos e com pedradas...

Acercamo-nos de Gade sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Ele, acalmado, estendera as mãos a um vendedor de água, que lhas purificava com um largo jorro do seu odre felpudo; depois, limpando-as à toalha de linho que lhe pendia do cinto:

- Escutai! José de Ramata reclamou o corpo do Rabi; o Pretor concedeu-lhe... Esperai-me à nona hora romana no pátio de Gamaliel... Onde ides?

Topsius confessou que íamos ao templo, por motivos intelectuais de arte, de arqueologia...

- Vão é aquele que admira pedras! - rosnou o altivo idealista.

E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bênçãos do povo que crê e ama os essênios.

Para poupar, até ao templo, a rude caminhada pelo Tiropeu e pela ponte do Xisto, tomamos duas liteiras - das que um liberto de Pôncio ultimamente alugava, junto ao Pretório, "a moda de Roma".

Cansado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no colchão de folhas secas que cheirava a murta; e lentamente começou a invadir-me a alma uma inquietação estranha, temerosa, que já no Pretório me roçara de leve como a asa arrepiada de uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre nesta cidade forte dos judeus? Perdera eu irre-mediavelmente a minha individualidade de Raposo, de católico, de bacharel, contemporâneo do Times e do gás - para me tornar um homem da Antigüidade clássica, coevo de Tibério? E, dado este mirífico retrogresso nos tempos, se voltasse à minha pátria, que iria eu encontrar à beira do rio claro...

(continua...)

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