Por Eça de Queirós (1900)
- Sério, sério, Gonçalo! Eleição, reconciliação, submissão, e tu em Lisboa às cortesias ao S.Fulgêncio, e em Oliveira de braço dado com o André, tudo isso me parece que destoa... Mas enfim se a Rosa hoje se apurou, não aludamos mais a coisas tristes!
E Gonçalo bracejava, de novo protestava - quando o violão ressoou no corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o Fado recomeçou, mais meigo, mais glorificador:
- Velha Casa de Ramires, Honra e flor de Portugal!
VI
A casa do Cavaleiro em Corinde era uma edificação dos fins do século XVIII, sem elegância e sem arte, pintada de amarelo, lisa e vasta, com quatorze janelas de frente, quase ao meio duma quinta chá, toda de terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada nobreza, ao pátio da frente, ornado por dois tanques de mármore. Os jardins conservavam a abundância esplêndida de rosas que os tornara famosos - e lhes merecera em tempos do avó de André, o Desembargador Martinho, uma visita da Sra. D. Maria II. E dentro todas as salas reluziam de asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma parenta pobre do Cavaleiro, a Sra. D. Jesuína Rolim.
Quando Gonçalo, que viera da Torre na égua, atravessou a ante-sala, ainda reconheceu um dos painéis da parede, fumarento combate de galeões, que ele uma tarde rasgara jogando o espadão com André. Sob esse painel, à borda do canapé de palhinha, esperava melancolicamente um amanuense do Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E de uma porta remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo criado, o fiel Mateus, gritou alegremente:
- Ó Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Saí da tina... Ainda estou em ceroulas!
E em ceroulas o abraçou, num generoso abraço de parabéns. Depois, enquanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das malas - gravatas, peúgas de seda, garrafas de perfumes - conversaram do calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...
- Um horror! - exclamava o Cavaleiro aquecendo um ferro de frisar à lâmpada de álcool. - Todasas ruas da Baixa em obras, cobertas de caliça, de poeirada. O Central infestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Túnis, Lisboa!... Mas enfim, lá combatemos bravamente o bom combate!
Gonçalo sorria, do canto do divan onde se acomodara, entre uma pilha de camisas de cor e outra de ceroulas com monograma flamante:
- E então, Andrezinho, tudo arranjado, hem?
O Cavaleiro, diante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas grossas do bigode. E só depois de o ensopar em brilhantina, de acamar as ondas da cabeleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a Gonçalo, já inquieto, que a eleição ficara sólida...
- Mas imagina tu! Quando apareci em Lisboa, no Ministério do Reino, encontrei o Círculo prometido ao Pita, ao Teotônio Pita, o grande homem da Verdade...
O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:
- E então?...
E então ele mostrara muito asperamente ao José Ernesto a inconveniência de dispor do Círculo como de um charuto, sem o consultar, a ele, Governador Civil - e dono do Círculo... E como o José Ernesto se arrebitava, aludia à conveniência superior do Governo, ele logo, estendendo o dedo firme: - "Pois Zezinho, flor, ou trago o Ramires por Vila-Clara, ou me demito, e arde ~ Espantos, escarcéus, berreiros - mas o José Ernesto cedera, e tudo findou jantando ambos em Algés com o tio Reis Gomes, onde à noite, ao bluff as senhoras lhe arrancaram quatorze mil reis.
- Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos atentos. O José Ernesto é rapaz leal,meu velho amigo. E depois conhece o meu gênio... Mas há os compromissos, as pressões... E agora a novidade pitoresca. Sabes quem se propõe contra ti, pelos Regeneradores?... Adivinha... O Julinho!
- Que Julinho?... O Júlio das fotografias?
- O Júlio das fotografias.
- Diabo!
O Cavaleiro encolheu os ombros, com piedade:
- Arranja dez votos à porta da quinta, tira o retrato a todos os taverneiros do Círculo em mangasde camisa, e continua a ser o Julinho... Não! só Lisboa me inquieta, a canalha política de Lisboa!
Gonçalo torcia o bigode desconsolado:
- Imaginei tudo mais sólido, mais inabalável... Assim com todas essas intrigas, ainda surdetrapalhada... Ainda lá não vou!
O Cavaleiro, ao espelho, esticava o fraque - que experimentara abotoado, depois repuxadamente aberto sobre o colete de fustão cor de azeitona, onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida por uma safira. Por fim, encharcando o lenço com essência de feno:
- Nós estamos bem aliados, bem consagrados, não é verdade? Então meu caro Gonçalo,sossega, e almocemos regaladamente !... Creio que este fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hem?
- Magnífico! - afirmou Gonçalo.
- Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu reveres os velhos pousos e te florires com umarosa de Corinde.
E logo no corredor, ornado de jarrões da Índia, de arcas de charão, enlaçando o braço de Gonçalo, do seu recuperado Gonçalo:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.