Por Eça de Queirós (1878)
- Bem, pois mande-mo logo, fico com ele. E mande a conta.
- Leva uma rica obra!
Sebastião agora olhava em redor. Queria falar do pé torcido de D. Felicidade, e procurava uma transição. Examinou umas jarras da Índia, um tremó; e avistando uma poltrona de doente:
- Aquilo é que era bom para a D. Felicidade! - exclamou logo - aquela cadeira! Boa cadeira!
O Paula arregalou os olhos.
- Para a D. Felicidade Noronha - repetiu Sebastião. - Para estar deitada... Pois não sabia,homem? Partiu um pé; tem estado muito mal.
- A D. Felicidade, a amiga de cá? - e indicou com o polegar a casa do Engenheiro.
- Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luísa vai para lá fazer-lhecompanhia todos os dias. Agora ia ela para lá...
- Ah! - fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa: - Mas eu ainda a vi entrar para cá há dehaver oito dias.
- Foi anteontem. - Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando muito umas gravuras: - Deresto a D. Luísa já ia todos os dias à Encarnação, mas era para ver a Silveira, a D. Ana Silveira, que esteve mal. Coitada, há três semanas que tem passado uma vida de enfermeira. Não sai da Encarnação! E agora é a D.
Felicidade. Não é má maçada!
- Pois não sabia, não sabia - murmurava o Paula, com as mãos enterradas nos bolsos.
- Mande-me o D. João VI, hem?
- Às ordens, Sr. Sebastião.
Sebastião foi para casa. Subiu à sala; e atirando o chapéu para o sofá: "Bem, pensou, "agora ao menos estão salvas as aparências!" - Passeou algum com a cabeça baixa; sentia-se triste; porque o ter conseguido, por um justificar aqueles passeios para com a vizinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéia de que os não podia justificar para consigo. Os comentários dos vizinhos iam findar por algum tempo, mas os seus?... Queria achá-los falsos, pueris, injustos; e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua retidão estavam sempre a revolvê-los baixo. Enfim, tinha feito o que devia! E com um gesto triste, falando só, no silêncio da sala:
- O resto é com a sua consciência!
Nessa tarde, na rua, sabia=se já que a D. Felicidade Noronha torcera um pé na Encarnação (outros diziam quebrara uma perna), e que a D. Luísa não lhe saia da cabeceira... O Paula declarara com autoridade:
- É de boa rapariga, é de muito boa rapariga!
A Gertrudes do doutor foi logo, à noitinha, perguntar à tia Joana, se era verdade da perna quebrada. A tia Joana corrigiu: era o pé, torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D. Felicidade dera uma queda, que ficara em pedaços. - Foi na Encarnação acrescentou. - Diz que anda tudo lá numa roda viva. A Luisinha até lá tem dormido...
- Pieguices de beatas! - rosnou com tédio o doutor.
Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, daí a dias, o Teixeira Azevedo (que apenas cumprimentava Luísa), tendo-a encontrado na Rua de São Roque, parou, e com uma cortesia profunda:
- Desculpe Vossência. Como vai a sua doente?
- Melhor, agradecida.
- Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por calor à Encarnação...
Luísa corou.
- Coitada! Não lhe falta companhia, mas...
- É de muita caridade, minha senhora - exclamou com ênfase. - Tenho-o dito por toda a parte. Éde muita caridade. Um criado de Vossência!
E afastou-se comovido.
Luísa fora logo, com efeito, ver D. Felicidade. Tinha uma luxação simples; nos quartos da Silveira, com o pé em compressas de arnica, cheia de terror de perder a perna, passava o dia rodeada de amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do recolhimento, e debicando petiscos.
Apenas alguém entrava para a ver, redobrava de exclamações e de queixas; vinha logo a história miúda, incidentada, prolixa da desgraça; ia a descer, a pôr o pé no degrau; escorregara; sentiu que ia a cair; ainda se sustentou, e pôde dizer: "Ai, Nossa Senhora da Saúde!" Ao princípio a dor não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!
Todas as senhoras concordavam que era realmente um milagre. Olhavam-na compungidas, e iam ao coro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos especiais o alívio da Noronha!
A primeira visita de Luísa foi para D. Felicidade uma consolação; deu-lhe melhoras; porque se ralava de estar ali de cama, sem saber notícias dele, sem poder falar dele!
E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luísa, chamava-a logo para a cabeceira, e num murmúrio misterioso: tinha-o visto? Sabia dele? - A sua aflição era que o Conselheiro não soubesse que ela estava doente, e não lhe pudesse dar aqueles pensamentos compassivos a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto para o seu coração! Mas Luísa não o vira e D. Felicidade, remexendo a chazada, exalava suspiros agudos.
As duas horas Luísa saía da Encarnação e ia tomar um trem ao Rossio: para não parar à porta do Paraíso com espalhafato de tipóia, apeava-se ao Largo de Santa Bárbara; e fazendo-se pequenina, cosida com a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso de prazer.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.