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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Marta, entre o Deus incompreensível e o Cristo-homem, via um ser tangível, o seu único termo de comparação – o José Dias, esposo da sua alma e dominador dos seus nervos reacendidos e abraseados pela saudade. Nas apóstrofes a Jesus, palpitavam-lhe nítidas as curvas do amante que a ouvia de entre as nuvens, numa clareira azul, com a sua lividez marmórea e os anéis dos cabelos louros esparsos como nas cabeças dos querubins. Tinha aquele namoro no Céu quando abria a página do livro com que o confessor lhe dissera que havia de exorcizar as tentações voluptuosas da sua alma e do seu corpo.

XIX

Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser grandemente disparatadas as revelações de Marta para que o varatojano desconfiasse que ela estava obsessa e que as suas visões deviam ser malfeitorias de demónio íncubo. Feliciano discordava da opinião do inexorável exorcista, quando ele o interrogava sobre miudezas de alcova. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior parte do dia a rezar pelo livro no oratório; que tinha dias de comer bem e outros dias de não comer nada; que não dava palavra às criadas, nem se metia no governo da casa; que com ele também falava pouco, e não desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com ele. Verdade era que às vezes ele acordava e a via sentada com os olhos postos no tecto.

– Pois é isso... – atalhava o varatojano.

– É isso quê, Sr. Frei João? – perguntava o marido.

O confessor não podia explicar-se. O seu praxista Brognolo, ampliado pelo padremestre arrábido Frei José de Jesus Maria, admoestava-o a ocultar de terceiras pessoas os sinais evidentes da obsessão de uma alma, sem estar devidamente aparelhado para o combate e na presença do inimigo. O aparelho, neste caso, era a estola, a agua benta, o latim – uma língua familiar ao Diabo. Além dos preceitos da arte, havia a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adúlteras do demónio incito, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigário de Caldelas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a brasileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energúmena. O padre Osório abriu um sorriso importuno, destes que vêm de dentro em golfos involuntários como a náusea de um embarcadiço enjoado. O egresso reparou no trejeito herético da boca do padre, e perguntou-lhe se tinha alguma dúvida a pôr.

– Uma pequena dúvida, Sr. Frei João – respondeu intemeratamente o vigário. – Não posso aceitar que o Diabo, sendo filho de Deus, seja o ente perverso que faz sofrer a pobre Marta...

– O Diabo, filho de Deus! – interrompeu o varatojano, levando as mãos enclavinhadas à testa. – Padre Osório, o senhor disse uma blasfémia enorme... Santo nome de Jesus! O Diabo filho de Deus! Anátema!

–Anátema à lógica, ao raciocínio, portanto! – contraveio sereno e risonho o outro.

– A lógica? a lógica de Calvino, de Voltaire.

– Não, senhor, a lógica do professor que ma ensinou no seminário bracarense. Criador não é pai?

– É sim, e dai?

– Deus é pai de todas as suas criaturas; ora o Diabo é criatura de Deus; logo: Deus é pai do Diabo. – Distinguo! – contrariou o varatojano.

E o vigário, sem atender à interrupção escolástica:

– Se Deus é bom, as suas criaturas não podem ser más; ora, o Demónio é mau: logo, o Demónio não pode ser criatura de Deus; mas, se o Diabo não é criatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da África perguntava ao missionário: Quem é o pai do Diabo?

– Distinguo! – insistiu o varatojano apoiado nas velhas fórmulas da dialéctica esmagadora. – Deus criou os anjos; destes houve alguns que se rebelaram contra o seu criador, e foram precipitados do Céu: são os espíritos infernais. Alguns desses anjos não desceram às trevas inferiores, e permanecem para flagelo do género humano no ar caliginoso. Aer caliginosus est quasi carcer doemonibus usque in diem judicii, diz S. Agostinho. Deus permite que os demónios vexem as criaturas, pelo bem que pode resultar às criaturas desse vexame. É o que se colhe do Evangelho de S. João: Omnia per ipsum facta sunt. Portanto, Deus permite o mal? logo: este mal é bom, porque Deus é o Sumo Bem. Verdade é que os males não são bens...

– Ia eu dizer... – atalhou o padre Osório; ao que o missionário acudiu prestes e vitoriosamente:

– Mas Deus tira os bens desses mesmos males, como diz S. Tomás: Bonum invenire potest sitie maio, sed malum non potest invenire sine bono Logo: Deus permite o mal como causa do bem; id est, permite o Demónio como exercitação saudável do género humano. Melius judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere, diz S. Agostinho; e S. Tomás ainda é mais claro e persuasivo: Divina sapientia permittit aliqua mala tieri per moios Angelos propter bona quite ex eis elicit. São doze as causas por que Deus permite que os demónios atormentem as criaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa seja neste mundo e no outro atormentado; segunda...

(continua...)

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