Por Eça de Queirós (1878)
Travaram então um berreiro sobre Descartes. E imediatamente, sem que Sebastião atônito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéia de Deus.
O estudante parecia necessitar Deus para explicar o Universo. Mas Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe uma hipótese safada", "uma velha caturrice do partido miguelista"! E começaram a assaltar-se sobre a questão social, como dois galos inimigos.
O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o princípio da autoridade! Julião berrava pela "anarquia individual!" E depois de citarem com fúria Proudhon, Bastiat, Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridência da voz, censurou violentamente ao estudante - as suas inscrições a seis por cento, o ridículo de ser filho de um corretor de fundos, e o bife de proprietário que vinha de comer na Áurea!
Olharam-se, então, com rancor.
Mas daí a momentos o estudante deixou cair com desdém algumas palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.
Sebastião tomou o chapéu.
- Adeus - disse baixo.
- Adeus, Sebastião, adeus - disse prontamente Julião.
Acompanhou-o ao patamar.
- E quando quiseres que eu fale a meu primo... - murmurou Sebastião.
- Pois sim, veremos, eu pensarei - disse Julião com indiferença, como se o orgulho do trabalholhe tivesse dissipado o terror da injustiça.
Sebastião foi descendo as escadas, pensando: "Não se lhe pode falar em nada, agora!"
De repente veio-lhe uma idéia: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se com ela! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher de idade, íntima de Luísa; tinha mais autoridade, mais habilidade mesmo...
Decidiu-se logo; tomou um trem, foi à Rua de São Bento.
A criada de D. Felicidade apareceu-lhe, desolada e lacrimosa:
- Pois não sabe?
- Ai! Até admira!
- Mas o quê?
- A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma n estado muito mal,muito mal.
- Aqui?
- Na Encarnação. Nem pode sair. Está com a senhora D. Ana Silveira. Uma desgraça assim! Eestá num frenesi!
- Mas quando foi?
- Anteontem à noite.
Sebastião saltou para o trem, mandou bater para casa de Luísa. D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luísa podia bem sair todos os dias! Ia vê-la, fazer-lhe companhia, tratar dela!...
A vizinhança não tinha que rosnar! Ia ver a pobre doente!...
Eram duas horas quando a parelha estacou à porta de Luísa. Encontrou-a, que descia a escada, vestida de preto, de luva gris-perle, com um véu negro.
- Ah! Suba, Sebastião, suba! Quer subir?
Parara nos degraus, com uma corzinha no rosto, um pouco embaraçada.
- Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade...
- O quê?
- Torceu um pé. Está mal.
- Que me diz?
Sebastião deu os pormenores.
- Vou lá já.
- Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que está mal. - Acompanhou-a atéà esquina da rua, ofereceu-lhe mesmo a tipóia: - E muitos recados que tenho pena de a não ver!... Pobre senhora! E diz que está num frenesi!
Viu-a afastar para a Patriarcal, e, admirando a graça da sua figura, esfregava as mãos satisfeito.
Estavam justificadas, santificadas mesmo aquelas passeatas todos os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessário que todos soubessem: o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã subir a rua, dissessem: "Lá vai fazer companhia à doente! Santa senhora".
O Paula estava à porta da loja - e Sebastião com uma idéia súbita, entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes, tão hábil!
Deitou um pouco O chapéu para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o painel que representava D. João VI:
- Quanto quer vossemecê por isto, ó Sr. Paula?
O Paula ficou surpreendido:
- O Sr. Sebastião está a brincar?
Sebastião exclamou:
- A brincar? - Falava muito sério! Queria uns quadros para a sala de entrada, em Almada; masvelhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre um papel escuro. - Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!
- Desculpe, Sr. Sebastião... Pois nesse caso há por aí alguns painéis a calhar.
- Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto?
O Paula disse, sem hesitar:
- Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre.
Era uma tela desbotada de tom defumado, onde uns restos de face avermelhada, com uma cabeleira em cachos, sobressaíam vagamente sobre um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o veludo de uma casaca de corte; a pança saliente e ostentosa enchia um colete esverdeado. E a parte mais conservada da tela era, ao lado sobre um coxim, a coroa real, que o artista trabalhara com uma minuciosidade entusiasta, ou por preocupação de idiota, ou por adulação de cortesão.
Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escrito por trás, numa tirinha de papel; espanejou a tela com amor; indicou as belezas, falou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de móveis, que tinham a consciência nas palmilhas; jurou que o retrato pertencera ao Paço de Queluz, e ia atacar as questões públicas - quando Sebastião disse resumindo:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.