Por Eça de Queirós (1887)
- Oficial de César, Pôncio, muito justo e muito sábio! O homem que tu chamas visionário, há anos que ofende todas as nossas leis e blasfema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando te trouxemos nós? Somente quando o vimos entrar em triunfo pela Porta de Ouro, aclamado como Rei da Judéia. Porque a Judéia não tem outro rei senão Tibério; e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra César, apressamo-nos a castigá-lo. Assim fazemos nós, que não temos mandado de César, nem cobramos do seu erário; e tu, oficial de César, não queres que seja castigado o rebelde a teu amo?
A face larga de Pôncio, que uma sonolência amolecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquela tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zelo ruidoso por César para poderem, em nome da sua autoridade, saciar um ódio sacerdotal - revoltou a retidão do romano; e a audaciosa admoestação foi intolerável ao seu orgulho. Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:
- Cessai! Os procuradores de César não vêm aprender, a uma colônia bárbara da Ásia, os seus deveres para com César!
Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indignação. Eu tremi. Mas o soberbo Rabi prosseguiu, mais indiferente à ira de Pôncio do que ao balar de um anho que arrastasse às aras:
- Que faria o procurador de César, em Alexandria, se um visionário descesse de Bubastes, proclamando-se Rei do Egito? O que tu não queres fazer nesta terra bárbara da Ásia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem nela e que a vindimem? Para que estás então na Judéia? Para que está a sexta legião na Torre Antônia? Mas o nosso espírito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Pôncio, para que César a ouça!...
Pôncio deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados naqueles judeus que, astutamente, o iam enlaçando na trama sutil dos seus rancores religiosos:
- Eu não receio as vossas intrigas! - murmurou surdamente. Elio Lama é meu amigo!... E César conhece-me bem!
- Tu vês o que não está nos nossos corações! - disse Rabi Robã, calmo como se conversasse à sombra do seu vergel. - Mas nós vemos bem o que está no teu, Pôncio! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galiléia?... Se tu não queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade não respeitas, como podes querer salvar um profeta cujas profecias não crês?... A tua malícia é outra, romano! Tu queres a destruição de Judá!
Um estremecimento de cólera, de paixão devota, passou entre os fariseus; alguns palpavam o seio da túnica, como procurando uma arma. E Rabi Robã continuava denunciando o Pretor, com serenidade e lentidão:
- Tu queres deixar impune o homem que pregou a insurreição, declarando-se rei numa província de César, para tentar, pela impunidade, outras ambições mais fortes e levar, outro Judas de Gamala, a atacar as guarnições de Samaria! Assim preparas um pretexto para abater sobre nós a espada imperial, e inteiramente apagar a vida nacional da Judéia. Tu queres uma revolta para afogares em sangue, e apresentar-te depois a César como soldado vitorioso, administrador sábio, digno de um proconsulado ou de um governo na Itália! E a isso que chamais a fé romana? Eu não estive em Roma, mas sei que a isso se chama lá a fé púnica... Não nos suponhas, porém, tão simples como um pastor de Iduméia! Nós estamos em paz com César, e cumprimos o nosso dever, condenando o homem que se revoltou contra César... Tu não queres cumprir o teu, confirmando essa condenação? Bem! Mandaremos emissários a Roma, levando a nossa sentença e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante César a nossa responsabilidade, mostraremos a César como procede na Judéia aquele que representa a lei do Império!... E agora, Pretor, podes voltar ao Pretório.
- E lembra-te dos escudos votivos - gritou Sareias. - Talvez novamente vejas a quem César dá razão!
Pôncio baixara a face, perturbado. Decerto imaginava já ver além, num claro terraço junto ao Mar de Cáprea, Sejano, Cesônio, todos os seus inimigos, falando ao ouvido de Tibério e mostrandolhe os emissários do templo... César, desconfiado e sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto dele com esse "Rei dos Judeus", para sublevarem uma rica provinda imperial... E assim a sua justiça e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o proconsulado da Judéia! Orgulho e justiça foram então, na sua alma frouxa, como ondas um momento altas que uma sobre outra se abatem, se desfazem. Veio até ao limiar da porta, devagar, abrindo os braços, como trazido por um impulso magnânimo de conciliação - e começou a dizer, mais branco que a sua toga:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.