Por Eça de Queirós (1878)
Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos muito abertos, iam-se fixando - nos riscos ignóbeis da cabeça dos fósforos, ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nódoa de tinta entornada; nas bambinelas da janela, de uma fazenda vermelha, onde se viam passagens; numa litografia, onde uma figura, coberta de uma túnica azul flutuante, espalhava flores voando... Sobretudo uma larga fotografia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um indivíduo atarracado, de aspecto hílare e alvar, com a barba em colar, o feitio de um piloto ao domingo; sentado, de calças brancas, com as pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma coluna truncada; e por baixo do caixilho, como sobre a pedra de um túmulo, pendia de um prego de cabeça amarela, uma coroa de perpétuas!
- Foi o que se pode arranjar - disse-lhe Basílio. - E foi um acaso; é muito retirado, é muitodiscreto... Não é muito luxuoso...
- Não - fez ela, baixo. - Levantou-se, foi à janela, ergueu uma ponta da cortininha de cassafixada à vidraça; defronte eram casas pobres; um sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; à entrada de uma lojita balouçava-se um ramo de carqueja ao pé de um maço de cigarros pendentes de um barbante; e, a uma janela, uma rapariga esguedelhada embalava tristemente no colo uma criança doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha cor de melão.
Luísa mordia os beiços; sentia-se entristecer. Então nós de dedos bateram discretamente à porta. Ela assustou-se, desceu rapidamente o véu. Basílio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de ss melífluos, ciciou baixo. Luísa ouviu vagamente: - Sossegadinhos, suas chavezinhas...
- Bem, bem! - disse Basílio apressado, batendo com a porta.
- Quem é?
- É a patroa.
O céu pusera-se a enegrecer; já a espaços grossas gotas de chuva se esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais melancólico.
- Como descobriste tu isto? - perguntou Luísa, triste.
- Inculcaram-mo.
Outra gente, então, tinha vindo ali, amado ali? - pensou ela. E a cama pareceu-lhe repugnante.
- Tira o chapéu - disse Basílio, quase impaciente -, estás-me a fazer aflição com esse chapéu nacabeça.
Ela soltou devagar o elástico que o prendia, foi pô-lo no canapé de desconsoladamente.
Basílio tomou-lhe as mãos, e atraindo-a, sentando-se na cama:
- Estás tão linda! - Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito dela. E com a vista muitoquebrada:
- O que eu sonhei contigo esta noite!
Mas de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E imediatamente bateram à porta, com pressa.
- Que é? - bradou Basílio furioso.
A voz cheia de ss explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava à secar. Se se encharcasse, que perdição!...
- Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me! - berrou Basílio.
- Dá-lhe o cobertor...
- Que a leve o diabo!
E Luísa, sentindo um arrepio de frio nos seus ombros nus, abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de Basílio - vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.
Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava com os incensos e os almíscares das florestas aromáticas, imóvel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.
Apenas Luísa começou a sair todos os dias, Juliana pensou logo: 'Bem, vai o gajo!"
E a sua atitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza a abrir a porta, alvoroçada, quando Luísa voltava às cinco horas. E que zelo! Que exatidões! Um botão que faltasse, uma fita que se extraviava, e eram mil perdões, minha senhora", "desculpe por esta vez", muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção pela saúde dela, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar...
Todavia, desde as idas ao Paraíso, o seu trabalho aumentara: todos os dias agora tinha de engomar; muitas vezes era preciso ensaboar à noite colares, rendinhas, punhos, numa bacia de latão, até às onze horas. As seis da manhã, mais cedo, já estava com o ferro às voltas. E não se queixava; até dizia a Joana:
- Ai! É um regalo ver assim uma senhora asseada!... Que as há! Credo! Não, não é por dizer,mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora tenho saúde; o trabalho não me assusta!
Não tornara a resmungar da patroa. Afirmava mesmo à Joana repetidamente:
- A senhora, ai, é uma santa! Muito boa de aturar... Não a há melhor!
O seu rosto perdera alguma coisa do tom bilioso, da contração amarga. As vezes, ao jantar ou à noite, costurando calada ao pé de Joana, à luz do petróleo, vinham-lhe sorrisos súbitos, o olhar clareava-se-lhe numa dilatação jovial.
- A Sra. Juliana tem o ar de quem está a pensar em coisas boas...
- A malucar cá por dentro, Sra. Joana! - respondia com satisfação.
Parecia perder a inveja; ouviu mesmo falar com tranqüilidade do vestido de seda que estreou num dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor. Disse apenas:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.