Por Eça de Queirós (1925)
Mas aquela sentinela, eterna, que me parece sempre a mesma, tem um ar de estabilidade, de perpetuidade que me faz o coração negro. Cada passada que ela dá com a sua dura sola, caime com um eco lúgubre na alma, e no seu monótono passeio, de guarita a guarita, dá-me a sensação de que nunca deixará de haver, sobre a terra portuguesa, uma sentinela estrangeira.
E não me posso arrancar a este espectáculo! Pela manhã, ao fazer a barba, fico de navalha no ar, a face coberta de flocos de espuma, espantado para o pequeno soldado, que parece entrouxado no capotão azul, com o boné de couro envernizado e a arma ao ombro... uma daquelas armas que alcançavam o dobro das nossas, e que ceifavam de longe, nas linhas de defesa, regimentos inteiros.
De modo que, agora, já conheço quase todas as. sentinelas do Arsenal. Durante algum tempo, foram soldados de marinha; agora são geralmente do 15 de Linha. Mas há sobretudo um tipo de soldado que me indigna: é o rapagão robusto, sólido, bem plantado sobre as pernas, de cara decidida e olhos reluzentes; penso sempre: foi este que nos venceu! Não sei porquê, lembrando-me do nosso próprio soldado, bisonho, sujo, encolhido, enfezado do mau ar dos quartéis e da insalubridade dos ranchos – vejo nessa superioridade de tipo e de raça toda a explicação da catástrofe.
Antigamente, antes da invasão, raras vezes pensei em observar a sentinela do Arsenal: lembra-me, porém, de a ter visto, por acaso, ao chegar à janela: se chovia, era certo descobrila encolhida na guarita, fixando um olho apagado e triste sob o caudal de água; se fazia calma, era o seu andar, o seu derreado de ombros que me impressionavam... era a moleza lenta do passo, uma expressão contínua e evidente de tédio e de fadiga; e depois, ao fim de duas horas de serviço, era um derreamento maior, um embrutecimento, uma maneira lorpa de fixar tudo – os bois, os americanos, as varinas apregoando peixe, os vendilhões, a tenda defronte – que tornavam visível a falta de nervo, de vigor, de fixidez disciplinada, de firmeza, de persistência. E esta visão do nosso soldado, parece-me então alargar-se e abranger toda a cidade, todo o País! Foi esta sonolência lúgubre, este tédio, esta falta de decisão, de energia, esta indiferença cínica, este relaxamento da vontade, creio, que nos perderam...
Ainda hoje me soam aos ouvidos as acusações tantas vezes repetidas do tempo da luta: não tínhamos exército, nem esquadra, nem artilharia, nem defesa, nem armas!... Qual! O que não tínhamos era almas... Era isso que estava morto, apagado, adormecido, desnacionalizado, inerte... E quando num Estado as almas estão envilecidas e gastas – o que resta pouco vale...
Nunca me há-de esquecer a impressão que tive, no dia em que soube que a guerra nos havia sido declarada e que estavam reunidas tropas organizadas de antemão, para a invasão, pelo sul e pelo norte.
Fazia anos o meu pobre amigo Nunes, que morava então ao Rossio. Desde a tarde que um pânico pairava sobre a cidade, porque a verdade é que, mesmo desde que estalara na Europa a guerra, tão violentamente provocada pela Alemanha, invadindo a Holanda, nunca em Lisboa, pelo menos na maioria do público, houvera o receio de que a coisa chegasse cá ao nosso canto, como então se dizia.
Nem mesmo quando o velho Salisbury, quase no seu leito de morte, lançou o seu grande manifesto e declarou a guerra à Alemanha, e quando vimos assim a nossa única.85 protectora tão ocupada numa luta no Norte, nos considerámos em perigo. E todavia parecia ter chegado o dia terrível em que podiam desaparecer da Europa as pequenas nacionalidades!... Por isso, ao ser, nessa tarde fatal, anunciada oficialmente a entrada dum exército inimigo na fronteira, toda a cidade ficou como petrificada, num desvairamento de terror.
O primeiro movimento da população foi correr às igrejas! Já se imaginava ver os regimentos inimigos espalhando-se pelas ruas... Não creio mesmo que tivesse havido a ideia duma resistência séria. Disse-se, é certo, que tentaríamos dar uma batalha junto a Caminha, ou em Tancos, unicamente para mostrar à Europa que tínhamos ainda alguma vitalidade: mas era apenas uma demonstração, porque a ideia seria recolhermos às linhas de Torres Vedras e defender Lisboa. Eu, de resto, não estava nos segredos do Estado-Maior nem do Governo, e apenas sei o que se dizia nos grupos que enchiam as ruas, apavorados, falando baixo.
Nessa noite fui ao Rossio. O Nunes dava uma soirée... Na sala pesava a mesma tristeza soturna da rua. Havia nas faces, nas vozes, como que uma expressão desvairada de espanto e de terror: uma singular maneira de perguntar – então? com os olhos muito abertos nas faces pálidas...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.