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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

- Tenho a satisfação de te dizer que o meu padre Joaquim está vivo e vivedouro. Não o viste lá em casa porque foi para o Alto Minho consoar com a família, tributo que ele pagou sempre; mas nunca vai que não se despeça a chorar, e nunca vem que nós o mão recebamos com grande alvoroço de alegria. E o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os óculos de modo que as lições caem em pedra árida, e o padre já diz que considera perdidos dez anos de vida naquele ensino. Que mais queres saber?

- Se poderei dormir duas horas em tua casa - respondi eu.

- Vamos partir.

- E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingarão eles em mim a falta do padre? Previne-me.

Partimos.

À distância de um oitavo de légua do paraíso restaurado do meu amigo, enxergámos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dois ao colo e outros dois pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam numa grilharia bárbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros.

- Cá vou preparando a cabeça de progenitor e ouvidos paternais - disse eu. - Seriam excelentes anjos aqueles pequerruchos se tivessem laringes mais acomodadas ao aparelho auditivo do género humano!

- São os meus filhos! - exclamou Afonso. - E minha mulher! Ali tenho tudo, o capital, o juro e a usura da felicidade que desbaratei. Ali me esperou minha mãe dois anos, e eu não voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o Céu fora o mais alto ponto onde ela voara para ver de lá a minha perdição. Ali voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flores que eram dela; das primeiras adornei os cabelos de minha mulher; das que me deu a Primavera seguinte engrinaldei o berço do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorescência vem minha mãe coroar o novo anjo, que minha mulher lhe oferece como a intercessora com o Altíssimo. Oh, meu amigo!, de envolta com a felicidade, a religião! Sabes tu o que é ter um Deus que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povoa o espaço onde a alma insaciável do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração aflitiva".

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Aproximámo-mos do formoso grupo. Apeei: fui cortejar a mulher do amor de salvação e disse-lhe, comovido e creio mesmo que lagrimoso:

- Ao cabo de dez anos de felicidade não interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de V. Exª com o funesto contágio da sua má estrela! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivência de seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Afonso de Teive cerrou olhos nesta infinda noite de Dezembro!...

- Também eu não! - atalhou Afonso sorrindo -, também eu não!

- Não importa, minha senhora - tomei eu. - Seu marido velava; mas que saborosa vigília! Contou-me as suas desgraças para que eu pudesse cabalmente ajuizar da felicidade perene que V. Exª, depositária dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lágrimas e lhe está dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, neste mundo, era uma usurpação feita ao Céu!... Agora sei que há sobre a Terra um homem feliz há dez anos, feliz para uma longa existência. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!

Mafalda baixou levemente a cabeça com gracioso acanhamento e disse:

- Não sou eu sozinha a felicitar meu primo: são as orações de nossas mães e o amor angélico dos nossos filhinhos.

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SOBRE O AUTOR E SUA OBRA

Camilo Castelo Branco

Nascido em Lisboa em 1825, Camilo ficou órfão de mãe aos dois anos e de pai aos dez, passando a ser criado por uma tia e uma irmã. Aos 16 anos casou-se com Joaquina Pereira e, dois anos depois, em 1843, matricula-se na Faculdade de

Medicina, porém, não conclui o curso. A partir de 1848, passa a viver do jornalismo e a freqüentar a boêmia.

Quando completa 21 anos, rapta Patrícia Emília e vai viver com ela na cidade do Porto. Logo depois é acusado e preso por bigamia. Depois de conseguir a liberdade,

Camilo tem alguns amores passageiros até encontrar, por volta de 1824, Ana Plácido, a " mulher de sua vida ". Essa nova relação amorosa, no entanto, não é nada tranqüila, uma vez que Ana é casada com Pinheiro Alves, um rico comerciante local.

Casou-se, pela primeira vez, aos 16 anos, com Joaquina Pereira, de 15 anos, que abandonou. Seguiu para o Porto, onde se tornou estudante de Medicina.

Em 1850, conheceu Ana Plácido, o grande amor de sua vida, que se casou com Manuel Pinheiro Alves, por arranjo de família. Deprimido, ingressou num seminário, onde vive um caso amoroso com uma freira. Nesse meio tempo, publicou sua primeira novela, Anatema (1851).

(continua...)

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