Por Eça de Queirós (1925)
Ainda perdura a obra imorredoura que nos legou esse génio glorioso, que hoje, cercado da veneração saudosa de Portugal, repousa no Cemitério dos Prazeres. Sobre o mausoléu comemorativo que a saudade da respeitável Condessa d'Abranhos lhe ergueu, o talento do escultor Craveiro fez reviver no mármore a figura majestosa do Estadista.
E não é sem uma emoção profunda que ali vou cada ano em piedosa romagem, contemplar a alta figura marmórea, com o seu porte majestoso, o peito coberto das condecorações que lhe valeu o seu merecimento, uma das mãos sustentando o rolo dos seus manuscritos, para indicar o homem de letras, a outra assente sobre o punho do seu espadim de Moço Fidalgo, para designar o homem de Estado – e os olhos, por trás dos óculos de aros de ouro, erguidos para o firmamento, simbolizando a sua fé em Deus e nos destinos imortais da Pátria!.
A Catástrofe
Eu moro à esquina do Largo do Pelourinho, justamente defronte do Arsenal.
Já antes da guerra e dos nossos desastres, eu ali vivia, no segundo andar, à direita. Nunca gostei do sítio: sem ser bucólico, a minha ambição foi sempre habitar longe destes arruamentos tristes da baixa, num bairro de mais ar e de mais horizonte, com um quintal, uma frescura de folhagem e alguns metros de terra, onde, num rumorejar de árvores, pudesse ter roseiras e acolher pássaros nas tardes de Verão.
Mas quando herdei de minha tia Petronilha, comprei esta casa, defronte do Arsenal. Estes prédios são, por causa das lojas e dos armazéns, casas de maior rendimento do que as dos outros bairros, e, como emprego de capital, um prédio na Baixa é mais vantajoso do que uma casa bonita em Buenos Aires ou no bairro das Janelas Verdes. Foi pelo menos o que me disseram proprietários experientes.
De resto, eu tencionava alugar o prédio e ir habitar, com os meus, uma casinha pequena, alegre e fresca, que tinha apetecido para os lados do Vale de Pereiro. Mas quando vieram as nossas desgraças e o exército inimigo ocupou Lisboa, a necessidade de economia, os tempos tão difíceis, forçaram-me a abandonar esse plano de viver no campo, e agora aqui estou, neste triste segundo andar do Largo do Pelourinho, defronte do Arsenal.
Em má hora vim eu para aqui. Porque creio que esta vizinhança do Arsenal me tem feito sentir com uma intensidade maior todas as amarguras da invasão. Os que vivem para Buenos Aires, para as Janelas Verdes, para Vale de Pereiro, sofrem decerto, dolorosamente, da presença dum exército estrangeiro em Lisboa. Ainda que o primeiro terror passou, que a cidade vai retomando pouco a pouco a sua fisionomia ordinária, que circulam as tipóias e os trâmueis, pesa todavia o que quer que seja de doloroso sobre a cidade: o ar está carregado de qualquer coisa de subtil e opressivo, como uma atmosfera intolerável que circula nas praças, penetra nas casas, muda o gosto à água, faz parecer o gás menos claro, deposita na alma uma tristeza contínua, obcecante.
Às vezes, quando uma pessoa sai, e ocupada nalgum negócio, distraída por ele, se esquece do grande desastre que nos envolve basta, a uma esquina, a presença dum uniforme inimigo, para fazer imediatamente recair na alma, com um peso de penedo, a ideia da derrota e do fim da Pátria. Não sei o que é, mas, por exemplo, desde que no alto de algum edifício flutua a bandeira estrangeira, parece que este azul já não é o do nosso céu, e tem alguma coisa duma bruma lutuosa.
Contudo, noutros prédios, noutros bairros, basta a gente isolar-se em casa, para se subtrair a esta desolação ambiente!
Já que não há pátria, há família: fecham-se as portas, reúnem-se todos na sala, em volta do candeeiro doméstico; conversa-se. A recordação das desgraças oferece como um alívio pungente e a perspectiva da esperança ilude como uma felicidade passageira; lembram-se os amigos, os conhecidos que morreram bravamente na batalha; às vezes a recordação dum feito heróico dá como a sensação da honra conservada; depois, em redor do candeeiro, baixo, numa palpitação de todo o ser, há uma pequena conspiraçãozinha em família!
E o sonho da desforra faz suportar a realidade da catástrofe...
Mas a mim, nem sequer me é dado este isolamento: porque a não ser que feche as janelas, que me enterre numa treva constante, que viva à luz do gás quando o sol de Julho faísca lá fora, não posso deixar de ver diante de mim, como um memento odioso, à porta do Arsenal, a sentinela estrangeira pisando a terra da Pátria....
E é justamente esta sentinela que me indigna: decerto outros uniformes estrangeiros, todos esses oficiais dos couraçados que estão no ancoradouro, passam a toda a hora, na insolência brilhante das suas fardas espectaculosas... Pois bem, esses não me irritam... Há naquele vaivém de oficiais alguma coisa de apressado, de inquieto, que me dá a ideia duma ocupação transitória, de esquadras que vão levantar ferro, de humilhações que vão partir para sempre.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.