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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Que pouco tinha pensado n'ella, n'aquelle primeiro deslumbramento que lhe dera Lisboa ! De certo, muitos d'aquelles homens a conheciam, mas eram quasi todos de meia edade, de figuras fatigadas, com interesses positivos, e não sentia ciumes, na certeza de que nenhum a poderia interessar. E de todo aquelle cavaco ruidoso se desprendia para elle o indefinido conjuncto da vida de Lisboa, complexa, intensa, fortemente dramatica — onde. como sobre um fundo luminoso, se destacava a figura delicada da senhora do vestido de xadrez, que adorava agora, n'aquella dilatação da sensibilidade que lhe dava a excitação do jantar,

Tinha-se servido o café e uma vozearia erguia-se no fumo alvadio dos charutos. Com os cotovellos na mesa, em attitudes pesadas de fartura, sujeitos fallavam com intimidade ; ao fundo da sala, n'uma altercação aspera, um individuo de lunetas gritava, perguntando se o tomavam por tolo ; um homem de pelle córada, enfartado, arrotava tranquillamente ; o Padilhão queimava cognac no café, e o Melchior, excitado, discutia com o Visconde, com palavras muito cruas, as pernas da Vizenti, a primeira dangarina de S. Carlos.

Mas Meirinho erguera-se e indo bater no hombro de Melchior :

— Você quer vir cá a baixo ao quarto do Sarrotini ? E mais cá o amigo ! — accrescentou, dando palmadinhas no hombro d'Arthur.

— Prompto — exclamou Melchior. E de pé, puxando as calças, o charuto flammejante : — E d'aqui para S. Carlos, hein, Arthur Vae dia cheio' . —- chamou o creado : — Dá a conta a este senhor, ó Vicente ; depressa, hein ? Bom jantarzinho, Meirinho !

Arthur tambem achara o jantar excellente.

— Melhor que no HespanhoZ — acudiu Melchior — não é verdade ? Você, Arthur, o que devia era vir para cá para o Hotel. Aqui goza-se !

Meirinho disse com auctoridade :

— E para quem se quer relacionar, nada melhor.

Arthur já entrevira, com delicia, aquella possibilidade. E descendo para o quarto de Sarrotini, o tapete do corredor, o retinir d'uma campainha ele-

ctrica, um creado apressando-se com um taboleiro onde tilintavam louças, o som distante d'um piano, iam-no persuadindo tentadoramente. Que interessante seria, viver alli !

— Quem é o Sarrotini

—É o segundo baixo de S. Carlos — disse Melchior. — Grande pandego !

Abriram a porta do quarto, mas Melchior, avistando um sujeito de gaforina frizada, que fumava, languidamente estendido no sofá, não entrou : tinham d'ir a S. Carlos, não se podiam demorar,

Junto da porta, o Sarrotini, de jaquetão de veludilho sobre calças côr d'alecrim, grosso e vermelho, abraçou Melchior, a el ilustre periodista » ; apertou a cinta de Meirinho, dilecto amico » ; deu um shake-hands apaixonado a Arthur, fallando um italiano misturado d'hespanhol, verboso e jovial.

Arthur olhava curiosamente a saleta : varias pessoas conversavam animadamente, bebendo café ; em torno das luzes d'um piano aberto, havia uma imponderavel nevoa de fumo de charutos, e um sujeito d'oculos d'ouro preludiava, com o olhar errante no tecto ; sobre uma mesa estava uma rabeca, livros de musica enchiam uma poltrona, e de pé, com gestos vivos, um rapaz de fato claro, fallava violentamente : discutia-se Arte—e Arthur, enthusiasmado, ouvia os nomes de Courbet, Corot, .Delacroix . .

Mas houve um chui! E um moço paiiido, de buço claro, approximou-se do piano, ageitou os cabellos para traz das orelhas com um gesto dôce, fallou baixo ao pianista d'oculos d'ouro, e cerrando os olhos, com a cabeça inclinada, os labios entreabertos, cantou. Pela letra, Arthur reconheceu ser o duetto de Romeu e Julieta : era uma melodia d'uma adoração mystica e contemolativa, e a voz do moço pallido subia, n'uma supplicagão extactica, ao dizer :

Ce n'est pas l'alouette,

Non, ce n'est pas le jour;

C'est\le doux rossignol, confident de l'amour

Arthur escutava, encantado : parecia-lhe vêr no rythmo da musica dous braços tremulos elevaremse dos degraus d'uma escada de sêda para um balcão gothico, d'onde se debruça uma fórma branca,

emquanto o rouxinol canta nos massiços d'um antigo jardim

Mas Melchior, fechando a porta, travou-lhe do braço e foi-o levando pelo corredor, ainda deslumbrado d'aquella soirée de Litteratura e d'Arte, tão rapidamente entrevista.

— Aquillo é que é passar noites — disse elle.

— O amigo devia vir có para o Hotel — disse Meirinho,

Melchior insistia, achava que era melhor. E Ar thur, com um vago sonüo, antevia 80iréa comoaquella, cheias de conversas originaes, escutando musica, na preguiça enternecida das digestões ricase

— Talvez não haja quarto — lembrou, já seduzido.

— Ora essa ! — exclamou Meirinho.

E como o guarda-livros passava assobiando, chamou-o logo, levou-o para um canto, e, como se tratasse um negocio grave, fallou-lhe com ammacão : era um hospede a mais ; elle, o que queria, era que o Hotel prosperasse, hein ! E esperava que comprehendegsem que elle fazia tudo para chamar hospedes

(continua...)

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