Por Eça de Queirós (1878)
- Deixa lá, filha! Não hão de ser necessárias bruxarias!... D. Felicidade ergueu os olhos ao céu.
- Vais sair? - perguntou melancolicamente.
- Não.
D. Felicidade propôs-lhe então que viesse com ela à Encarnação. Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furúnculo! E viam a armação da igreja para a festa; estreava-se o frontal novo, um primor!
- E estou também com vontade de ir rezar uma estaçãozinha, para aliviar cá por dentro ajuntou, suspirando.
Luísa aceitou. Apetecia-lhe ir ver altares alumiados, ouvir o ciciar de rezas no coro, como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposições sentimentais. Começou a vestir-se depressa.
- Como tu estás gorda, filha! - exclamou D. Felicidade admirada, vendo-lhe os ombros, o colo.
Luísa diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a pele branca e fina.
- Redondinha - disse, namorando-se.
- Redondinha? Vais-te a fazer uma bola!
E acrescentou, tristemente:
- Também com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, sem cuidados...
- Vamos lá, minha rica - disse Luísa -, que as tristezas não te têm feito emagrecer.
- Pois sim, pois sim! Mas... - e parecia desolada, como curvada sob as suas próprias ruínas - cápor dentro é uma desgraça, estômago, fígado...
- Se a mulher de Tui faz o milagre, põe tudo isso como novo!
Felicidade sorriu, com uma dúvida desconsolada.
- Sabes que tenho um chapéu lindo? - exclamou de repente Luísa. - Não viste? Lindo!
Foi logo buscá-lo ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de miosótis.
- Que te parece?
- É um primor!
Luísa mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas azuis.
- Dá frescura - fez D. Felicidade.
- Não é verdade?
Pô-lo com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Basílio se a visse havia gostar, pensou. Era bem possível que o encontrassem...
- Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante; achava tão delicioso viver, sair, ir àEncarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, procurava pelo as chavinhas do toucador.
Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia ver! Saiu correndo, tontinha, cantarolando:
- Amici, ta notte e bella...
La ra la la...
Quase topou com Juliana, que varria o corredor.
- Não deixe de engomar a saia bordada para amanhã, Juliana!
- Sim, minha senhora. Está em goma!
E seguindo-a com um olhar feroz:
- Canta, piorrinha; canta, cabrazinha; canta, bebedazinha!...
E ela mesma, tomada subitamente de um júbilo agudo, atirou vassouradas rápidas, soltando na sua voz rachada:
- Além de amanhã termina a campanha, P-o-o-or aqui se diz...
Se tal for verdade, se não for patranha...
E com um espremido enfático:
- Se-e-rei bem feliz!
Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam em São Pedro de Alcântara.
Sebastião estivera contando a sua cena com Luísa, e como desde então a sua estima por ela crescera. Ao principio escabreara-se, sim...
- Mas teve razão! Assim de surpresa, ouvir uma daquelas! E eu levei a coisa mal, fui muito àbruta...
Depois, coitadinha, concordara logo, mostra-se muito desgostosa, toda zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lágrimas nos olhos.
- Eu disse-lhe logo que o melhor era falar ao primo, dizer o que se passava... Que te parece?
- Sim - disse vagamente Julião.
Tinha-o escutado distraído, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto térreo cavava-se, com uma cor mais biliosa.
- Então achas que fiz bem, hem?
E depois de uma pausa:
- Que ela é uma senhora de bem às direitas! As direitas, Julião!
Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada; grossas nuvens pesadas e pardas iam-se acumulando, enegrecendo para o lado da Graça por trás das colinas; um vento rasteiro passava por vezes, pondo um arrepio nas folhas das árvores.
- De maneira que agora estou descansado - resumiu Sebastião. - Não te parece?
Julião encolheu os ombros com um sorriso triste:
- Quem me dera os teus cuidados, homem! - disse.
E falou então com amargura nas suas preocupações. - Havia uma semana que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escola, e preparava-se para ele. Era a sua tábua de salvação, dizia; se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientela podia vir, e a fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza da sua superioridade não o tranqüilizava - porque enfim em Portugal, não é verdade? Nestas questões a ciência, o estudo, o talento são uma história; o principal são os padrinhos! Ele não os tinha - e o seu concorrente, um sensaborão, era sobrinho de um diretor-geral, tinha parentes na Câmara; era um colosso!
Por isso ele trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispensável meter também as suas cunhas! Mas quem?
- Tu não conheces ninguém, Sebastião?...
Sebastião lembrava-se de um primo seu, deputado pelo Alentejo, um gordo da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, falava-lhe... Mas sempre ouvira dizer que a Escola não era gente de empenhos e de intriga... De resto tinham o Conselheiro Acácio...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.