Por Eça de Queirós (1940)
Hoje dizia-se que algumas tribos do Cáucaso se tinham insurreccionado – o que podia cortar as comunicações do exército russo e isolá-lo na Ásia: esta noticia harmoniza-se com o despacho que diz ter o czar ordenado a mobilização do quarto, sétimo e décimo primeiro corpos de exército. Todos os correspondentes são uniformes em elogiar a organização dos Russos: boa cavalaria, equipamentos perfeitos, uma admirável administração, uma disciplina exacta, pagam tudo em ouro na România – e só o que é fornecido pela municipalidade é pago em letras, a três meses. Os Românicos recebem-nos fraternalmente: duvida-se todavia que lhes possam ser de utilidade na guerra. Certamente o príncipe Carlos é prussiano, da Casa de Hohenzollern, bravo, e deseja ardentemente uma reputação militar: mas um românico é apenas um soldado de aparato: admirável nos jardins ou nos cates, com os seus uniformes pesados de bordaduras – não tem as qualidades de resistência, de fé e de tenacidade que fazem o bom soldado. No entanto, são vinte ou trinta mil homens – e quando não sirvam senão para guarnecer os territórios que os Russos forem ocupando são já de uma grande vantagem; são outros tantos milhares de russos desembaraçados das funções ociosas de guarnição e prontos para a campanha activa. O resultado definitivo da guerra não me parece duvidoso: esta é a sétima ou oitava guerra turco-russa – e se os Turcos não têm aprendido nada, os Russos têm aprendido tudo. O Turco é decerto o mesmo soldado bravo, sofredor, activo de outrora; mas a guerra hoje não é uma questão de bravura ou de arranque individual; é uma ciência com processos científicos – e neste ponto a inferioridade turca é absoluta. Desde as pontes importantes que se esquecem de cortar até aos monitores que deixam afundar sem razão – são verdadeiramente os antigos turcos, enchendo o seu cachimbo no momento do perigo e confiando em Alá.
Aqui, naturalmente, a grande preocupação é a atitude futura da Inglaterra; e não é fácil perceber, através das discussões difusas dos jornais e dos debates confusos do parlamento – qual é a verdadeira vontade do país: eu penso que, como o ministério, o país quer intervir. O ministério naturalmente declara, na câmara e nos jornais, a sua neutralidade: mas e realmente uma neutralidade a que declara que conservará a espada na bainha – se os Russos se abstiverem de ideias de conquista? E uma neutralidade condicional. É, rigorosamente, um começo de intervenção. E depois, por esta condição – a abstenção de conquista –, vem pôr de antemão uma condição que a lógica dos factos tomaria mais tarde ou mais cedo inaceitável.
A Rússia pode agora, decerto, declarar que não pretende territórios: mas depois de os ter ocupado terá força, renunciamento bastante para os restituir? Todo o estado vitorioso exige forçosamente, em definitiva, uma compensação aos sacrifícios da guerra: dinheiro ou terreno: ora a Turquia não tem dinheiro, logo há-de pagar com províncias. E isto é tão certo – que o exército russo na Ásia Menor vai acompanhado de uma corte numerosa de funcionários civis, prontos a organizar o país à russa, a maneira que ele for conquistado. De modo que, apenas os Russos se estendam na Ásia Menor ou marchem sobre Constantinopla – a Inglaterra tem de dizer o seu «alto lá».
Em qualquer destes casos, é a Índia que seria ameaçada, ou directamente ou no caminho que lá leva: daí a necessidade imediata de aumentar, num pé-de-guerra paralelo ao da Rússia, o exército da Índia, o que seria um encargo intolerável para a Índia e uma negação dos princípios económicos do Estado. A fazer tal, a Inglaterra prefere fazer a guerra.
Junte-se a isto que a Rússia, desde a sua marcha progressiva na Ásia, e o inimigo natural da Inglaterra: que a Inglaterra quer mostrar a sua força e a sua influência; que está despeitada pela maneira falaz e tortuosa por que a Rússia conduziu as negociações anteriores à guerra – e sentir-se-á a popularidade da ideia da intervenção. Além disso a imprensa ministerial, em artigos frenéticos, pede claramente a guerra: e o Punch tinha razão outro dia – representando as penas aguçadas do Daily Telegraph, do Morning Post, do Pall Mall, espicaçando o enorme Leão Britânico para o fazer erguer-se e rugir.
Este sentimento julgo-o geral: há porém uma corrente de paixão que já por duas vezes tem atravessado o país e que o conserva por um, dois dias, num estado de excitação, desejando a destruição da Turquia, como um pais bárbaro, massacrado, fora da civilização.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.