Por Eça de Queirós (1925)
Foi esta forte educação rural que lhe deu aquelas cores sadias, aquele porte erecto, que destacavam com um tão edificante relevo entre os bustos anémicos e as faces amareladas da raça lisboeta. E a esta primitiva comunicação com a Natureza que ele deveu o seu espírito recto e tão bem ponderado, amando em tudo a ordem, o equilíbrio, a formosa disposição das hierarquias. Mens sana in corpore sano: que eu por mim tenho que as ideias falsas, anárquicas, são o resultado das organizações debilitadas. As cidades modernas, com as suas ruas mal arejadas, os seus quintos andares abafados, o seu rumor trovejante de fábricas e de veículos, a luz crua do gás, a alimentação insa-lubre, formam estas gerações pálidas, nervosas, agitadas por um desejo histérico de novidade, de artifício, de desordem e de violência. E esta a origem do espírito revolucionário. O homem que, pelo contrário, habita os campos, que respira o ar dos largos prados, repousa a vista na vasta linha do horizonte, na serenidade silenciosa das aldeias, ganha, num corpo forte, um espírito calmo: odeia a agitação; está naturalmente preparado para respeitar a Autoridade, os Princípios sólidos, a Ordem, toda a ordenação harmónica e bela do Estado.
Tenho, porém, a certeza de que o Conde, com a sua grande modéstia, não exprimia inteiramente a verdade quando atribuía aos ninhos e aos papagaios o privilégio de lhe absorverem todo o interesse! Não! Já então naquele espírito de criança deviam passar ideias, ainda indefinidas mas fortemente marcadas de originalidade: soltando aos ares os seus papagaios, é de crer que pensasse na eterna aspiração da alma para os cimos azulados da graça; e, ao contemplar ovos de pintassilgo, fofamente dispostos no fundo de um ninho muito quente e muito tenro, decerto lhe devia passar na alma a ideia eterna.9 da instituição da família. Um dia mesmo, ao contar-lhe estas suposições que me tinham atravessado o espírito:
– Qual história! – respondeu com bondade o Conde. – Isso são coisas da sua imaginação de poeta. Eu era um cavalão, aqui onde me vê!... Não nego, porém, que desde novo, fui inclinadote a agitar questões sociais!...
E quando eu vejo, hoje, moços saídos das escolas, sem experiência da vida, do Estado, da Administração, quererem reformar a Sociedade, como me parece admirável a modéstia deste homem notável, que classificava assim o seu grande génio filosófico: – inclinadote a agitar questões sociais!...
Assim, pois, crescia o jovem Alípio Abranhos, quando – do que depende o destino dos homens e muitas vezes a sorte das nações! – sua tia Amália veio a Penafiel consultar um dentista americano, então famoso em todo o Norte.
Esta senhora providencial (em que reaparecia a singular beleza do Apolo de Amarante) casara em nova com um proprietário rico de Amarante, e viúva, sem filhos, vivia em isolamento na sua Quinta dos Miguéis.
Naturalmente, em Penafiel, a tia Amália viu frequentemente seu sobrinho Alípio, e bem depressa a graça, a vivacidade, a esperteza do pequeno cativaram a tia, que, secretamente infeliz por não ter filhos, se vira até então obrigada a empregar o seu fundo de afeição maternal nas aves domésticas e nos diversos animais da sua quinta. Alípio era como um filho inesperado que lhe aparecia «a meio do caminho da sua vida» (Dante).
Não é hoje segredo para ninguém que o Conde d'Abranhos preparava um volume de Memórias Intimas, quando o acometeu a doença. E dessas notas interrompidas, truncadas, que eu transcrevo o seguinte parágrafo, relativo a este período decisivo da sua carreira:
«Minha tia Amália concebera o plano – abençoado plano! – de me levar para a Quinta dos Miguéis, e mandar-me dar uma educação que me habilitasse a tomar na sociedade a posição elevada que naturalmente me pertencia pela minha bisavó paterna: numa palavra, fazer de mim um Noronha, digno dos Noronhas.
Abriu-se a este respeito com meu pai, que acedeu prontamente, deslumbrado pela perspectiva de me ver possuidor de uma educação que os seus meios de fortuna não lhe permitiriam darme. A sua vontade, porém, encontrou formidáveis escolhos nas lágrimas de minha mãe. Separar-se do filho que ela criara ao seu peito, parecia-lhe tão doloroso como uma amputação. Lembra-me vagamente de a ver abraçada a mim, dizendo, banhada em rios de lágrimas: Ó Lipinho, que te querem levar! Ai, Lipinho, que querem fazer de ti um doutor!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.