Por Eça de Queirós (1912)
Acordou ao clamor triunfal. O seu homem areava o seu machado. E quando ela, ainda ofegante, lhe contou o seu sonho, ele permaneceu muito tempo pensativo, porque os sonhos são como tapeçarias que os anjos desenrolam e em que estão bordados, em cores claras, os destinos que hão de ser.
Ambos acordavam de manhã, a um grande canto de pássaros tão alegre e
ruidoso como se todas as cotovias e melros, da floresta, estivessem celebrando uma festa sobre o colmo da sua cabana: e em torno ao catre flutuava estranhamente um fresco cheiro de verduras e flores novas. Mas a mulher do lenhador não se podia erguer, num cansaço que a tornava mais pálida que um linho muito lavado: e bem depressa, gemendo, pediu ao seu homem que fosse buscar a moleira caridosa e hábil, porque chegava a sua hora de glória e de dor. E, ainda gemendo, a boa mulher começou logo a sua oração a Santa Margarida.
Atirando o machado que apertava ao cinto de couro, o bom lenhador correu através dos campos, ansiosamente, pisando sem dor os milhos novos, saltando as sebes em flor. A moleira carregava um saco cheio sobre o seu jumentinho branco. Descarregou logo o saco, saltou sobre o jumento, e através das azinhagas, a moleira galopando, o lenhador correndo, pararam à porta da cabana, quando do seu beiral se erguia, tomando o vôo, um casal de pombas brancas. Era um feliz prenúncio: - e enquanto o lenhador ia prender o jumentinho no eido, a moleira entrou na cabana depois de riscar no chão uma cruz com o pé, murmurando o nome de Santa Margarida. Mas voltou logo, trazendo nas mãos um largo cinto de couro, com que a boa fiandeira apertava as saias, e gritou pelo lenhador, para que ele corresse à capela, atasse o cinto na corda de couro, e repicasse nove repiques, rezando nove ave-marias. Eis de novo o bom lenhador correndo, com o cinto apertado ao peito, preciosamente: desceu aos choupais, frescos e cheios de sombra; correu ao comprido do rio, todo reluzente de sol, que uma grossa barca, com armas de um D. Abade e toda carregada de pipas, subia lentamente à sirga; galgou os lameiros, onde os gados pastavam, ao som das flautas dos pegureiros; abalou pela estrada, por diante da taberna do Galo Preto, de onde os carvoeiros da mata o chamavam, erguendo alegremente os pichéis de estanho... Ele, sem escutar, seguiu: mas teve de parar, de repente, porque dos lados da ponte, com um lampejar de armas e um brilho de sedas claras, desembocava um rica cavalgada, a caminho do castelo. Um clarim soava triunfalmente; guardas barbudos e graves traziam as lanças erguidas, ao alto; uma bandeira, no ar, desdobrava o seu grande brasão de cores estridentes; os pajens, empoeirados dos caminhos, conduziam à rédea azêmolas carregadas de pesados cofres pintados a escarlate e ouro; - e um fidalgo, moço, de barba negra, com um falcão no punho, ria de cima do seu alto corcel, coberto com um xairel de veludo azul, com um frade que cavalgava ao lado, numa mula toda branca. Galgos ágeis corriam em roda; e um troço de lanças seguia, erguendo grande poeira.
Curvado, cosido contra a sebe espinhosa, com o seu barrete na mão, o bom mateiro saudava humildemente, esperava com o coração a bater de ansiedade. Ao seu lado, outros vilões dobravam o joelho; e um velho alto murmurava que aquele era um barão de outras terras, que chegava para noivar com a filha do bom castelão. Mas de repente alguns cavaleiros paravam: uma das azêmolas, espantada, atirara ao chão os cofres de escarlate e ouro: e um senescal, correndo logo, reclamou todos os vilões ali juntos para virem erguer os cofres, carregar novamente a azêmola. E o bom mateiro lá se adiantou, aflito, com os olhos quase enevoados de lágrimas, mal podendo atar as cordas que prendiam os cofres nas andilhas da azêmola. Três vezes o senescal o injuriou. E a sua pobre companheira sofrendo por não repicarem os santos sinos que amansariam a sua dor!
Mas o animal, carregado de novo, aquietou, levado à rédea pelos pajens; e os cavaleiros trotaram na poeira, que o sol dourava. Então, livre, o lenhador correu desesperadamente à capela que servos do senhor andavam caiando de fresco.
Ajudado pelo sacristão, um velho corcunda a quem ele às vezes rachava lenha, atou o cinto de couro à corda grossa do sino: - e bem depressa, no azul cheio de sol, cantava alegremente os novos repiques devotos. Para maior segurança acendeu ainda, num altar duas velas a Santa Margarida. Depois, confiado na misericórdia do Céu, recolheu à sua cabana.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.