Por Eça de Queirós (1878)
O que a trazia era perguntar-lhe a morada da francesa que lhe fazia os chapéus. E há tanto tempo que a não via, já tinha saudades também!
- Mas não imaginas! Que calor! Venho morta.
E deixou-se cair sobre a almofada do sofá, encalmada, com um sorriso aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.
Luísa disse-lhe a morada da francesa, gabou-lha: era barateira e tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entreabrir um pouco as portadas da janela. Os estofos das cadeiras e as bambinelas eram de repes verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e naquela decoração sombria destacavam muito - as molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a Medéia de Delacroix e a Mártir de Delaroche), as encadernações escarlates de dois vastos volumes do Dante de G. Doré e entre as janelas o oval de um espelho onde se refletia um napolitano de biscuit que, na consola, dançava a tarantela.
Por cima do sofá pendia o retrato da mãe de Jorge, a óleo. Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado e seco: uma das mãos, de um lívido morto, pousava nos joelhos sobrecarregada de anéis; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas de um mantelete de cetim; e aquela figura longa, macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando ver para além céus azulados e redondezas de arvoredos.
- E teu marido? - perguntou Luísa, vindo sentar-se muito junto de Leopoldina.
- Como sempre. Pouco divertido - respondeu, rindo. E, com um ar sério, a testa um poucofranzida: - Sabes que acabei com o Mendonça?
Luísa fez-se ligeiramente vermelha.
- Sim?
Leopoldina deu logo detalhes.
Era muito indiscreta, falava muito de si, das suas sensações, da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luísa; e na sua necessidade de fazer confidências, de gozar a admiração dela, descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões deles, as maneiras de amar, os tiques, a roupa, com grandes exagerações! Aquilo era sempre muito picante, cochichado ao canto de um sofá, entre risinhos; Luísa costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão curioso!
- Desta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica filha! - exclamou Leopoldinaerguendo os olhos desoladamente.
Luísa riu.
- Tu enganas-te quase sempre!
Era verdade! Era infeliz!
- Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me sai uma maçada!
E picando o tapete com a ponta da sombrinha:
- Mas se um dia acerto!
- Vê se acertas - disse Luísa. - Já é tempo!
Às vezes na sua consciência achava Leopoldina "indecente"; mas tinha um fraco por ela: sempre admirara muito a beleza do seu corpo, que quase lhe inspirava uma atração física. Depois desculpava-a: era tão infeliz com o marido! Ia atrás da paixão, coitada! E aquela grande palavra, faiscante e misteriosa, de onde a felicidade escorre como a água de uma taça muito cheia, satisfazia Luísa como uma justificação suficiente: quase lhe parecia uma heroína; e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam de alguma viagem maravilhosa e difícil, de episódios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco misturado de feno, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.
- E que fez ele, o Mendonça?
Leopoldina encolheu os ombros, com um grande tédio:
- Escreveu-me uma carta muito tola, que afinal bem considerado era melhor que acabasse tudo,porque não estava para se meter em camisa de onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta.
Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó-dearroz; mas encontrou apenas um programa do Price.
Falou então do circo. - Uma sensaboria. O melhor era um rapaz que trabalhava no trapézio.
Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição!
E de repente:
- Então teu primo Basílio chega?
- Assim li hoje no Diário de Noticias. Fiquei pasmada!
- Ah! Outra coisa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que guarneceste tuaquele teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer um assim.
Tinha-o guarnecido de azul também, um azul mais escuro.
- Vem ver. Vem cá dentro.
Entraram no quarto. Luísa foi descerrar a janela, abrir o guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com cretones de um azul pálido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janelas, sob um dossel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre as bambinelas, em mesas redondas de pé de galo, plantas espessas, begônias, macomas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e forte, em vasos de barro vermelho vidrado.
Aqueles arranjos confortáveis lembraram decerto a Leopoldina felicidades tranqüilas. Pôs-se a dizer devagar, olhando em roda:
- E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hem? Fazes bem, filha, tu é que fazes bem!
Foi defronte do toucador aplicar pó-de-arroz no pescoço, nas faces:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.