Por Camilo Castelo Branco (1889)
Elisa chorava, e Henriqueta emudecera. Carlos estava impaciente pelo desfecho desta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas duas mulheres, e fazê-las amigas, sem saber a razão porque eram inimigas. A beleza impõe-se à compaixão. Elisa era bela, e Carlos era de uma sensibilidade extremosa. A máscara poderia ser, mas a outra era um anjo de simpatia e formosura. O espírito gosta do mistério que esconde o belo ; mas decide-se pela beleza real, sem mistério.
Henriqueta, depois de alguns minutos de silêncio, durante os quais não era possível avaliar-lhe o coração pela exterioridade da fisionomia, exclamou com ímpeto, como se despertasse de um sonho, daqueles íntimos sonhos de dor, em que a alma se reconcentra :
— “Teu marido ?”
— “Está em Londres.”
— “Há quanto tempo o não visite ?”
— “Há dois anos.”
— “Abandonou-te ?” — “Abandonou-me.”
— “E tu ?… Abandonaste-o ?”
— “Não concebo a pergunta…”
— “Ainda o amas ?”
— “Ainda…”
— “Com paixão ?”
— “Com delírio…”
— “Escreves-lhe ?”
— “Não me responde… Despreza-me, e chama-me Laura.”
— “Elisa !” — disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com entusiasmo nervoso — “Elisa ! Perdôo-te… És bem mais desgraçada que eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um nome… Sou Henriqueta ! Adeus.”
Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado daquele prólogo de um romance. Henriqueta tomo-lhe o braço com precipitação, e saiu do camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam tratos por adivinhar o segredo daquela conversa.
— “Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta ; mas não me atraiçoes, se queres a minha amizade.”
— “Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és ? Podes chamar-te Júlia em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais… Tudo mistérios ! Tens-me, há mais de uma hora, num estado de tortura ! Eu não sirvo para estas emboscadas… Diz-me quem é aquela mulher…”
— “Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado ?”
— “Não a conhecia…”
— “Então que mais queres que eu te diga ?”
— “Muitas outras coisas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes tem aquela Laura, que se chama Elisa. Fala-me do marido daquela mulher…”
— “Eu te digo… O marido daquela mulher chama-se Vasco de Seabra.. Estás
satisfeito ?”
— “Não… Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquela Laura?”
— “Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um profundo silêncio a respeito do que ouviste. À menor pergunta que me faças, deixote ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma mulher de soalheiro. Eu contraí contigo a obrigação de te contar a minha vida ?”
— “Não ; mas contraístes com a minha alma a obrigação de eu me interessar na tua vida e nos teus infortúnios desde este momento.”
— “Obrigado, cavalheiro ! — Juro-te uma sincera amizade. — Hás-de ser o meu confidente.
Estava, outra vez, na platéia. Henriqueta aproximou-se ao quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou conversação com a família que o ocupava. Carlos acompanhou-a em todos esses movimentos, et preparou-se para um novo enigma.
Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma análise rigorosa. Não era possível, porém, fazê-la tirar a luva da mão esquerda.
— “Dominó, porque não deixas ver este anel ?” — perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro, como uma viúva rigorosamente enlutada.
— “Que te importa o anel, minha querida Sofia !?… Falemos de ti, aqui em segredo. Ainda vives melancólica, como a Dido da fábula ? Fica-te bem essa cor de esquifes, mas não sustentas o caráter artístico com perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade ?”
— “Não me ofendas, dominó, que eu não te mereço essa injúria… A desgraça nunca se finge…”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.