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#Romances#Literatura Portuguesa

Uma praga rogada nas escadarias da forca

Por Camilo Castelo Branco (1883)

O juiz era o algoz moral criado pelo ouro, assim como o carrasco físico fôra criado pela lei. Não podia eximir-se a pegar do cutelo, e seguir seu caminho.

- É tarde! - respondeu êle.

- Não é tarde! - replicou Pedro Leite, e continuou com solene exaltação: - Tarde, senhor juiz, é depois que o tribunal do mundo se fecha atrás dequele que vai entrar no tribulnal de Deus! Tarde, é quando um juiz de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réus condenados com a face borrifada de sangue inocente!

- Basta! - exclamou Paulo Botelho com autoridade.

- Pois sim... basta! Mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos dêste sangue inocente que vai ser derramado!

O povo murmurou com acanhamento, com a consciência cobarde da sua nulidade, mas balbuciou não sei

que palavras que irritaram o juiz.

- Não se trata só de punir o assassino de João Leite! - exclamou o juiz - Trata-se de castigar a afronta que recebeu um nobre, feita por um lacaio que ousou levantar olhos de mamnte para sua filha!

- Não, não! - gritou Eulália, erguendo-se com ímpeto, com as mãos postas, e caindo outra vez sôbre os

joelhos.

O cínico já não tinha coragem para tanto! Soara a hora do último mandato do carcereiro. Expirara o últi-

mo instante de oratório.

- Cumpra-se a lei!

Disse o juiz, e fêz menção de retirarem-se as ondas de povo que tinha concorrido em tropel, chamadas pe-

los gritos de Eulália, e pelo perdão público de Pedro Leite.

Eulália foi conduzida em braços para o interior da habitação do juiz.

- XIII -

A procissão onde a imprudência colocara um Cristo, o Deus da caridade, nas mãos dum padecente, que ia ser esmagado!... a procissão, onde se via um homem de túnica branca, um algoz de cutelo e alcôfa, alguns sacerdotes dum Deus misericordioso!... A procissão descia terrível de repulsiva solenidade para o açougue daquela rês! A tumba da misericórdia fechava aquela orgia de sangue! Era um insulto a Deus! O cadáver dum homem atirado à face do Criador! Um escárnio satânico à inteligência, e ao coração da humanidade!

O préstito parou na praça do sacrifício.

Bernardo com os olhos fitos no céu via nascer a risonha aurora da eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de Deus mostrava-lhe o seu regaço. A morte do justo era um crepúsculo de nova existência a alumiar-lhe o rosto. Inspirava devoção aquêle seu santo sorrir para o seio do céu que lhe abria! Trazia nas mãos a imagem do Redentor; mas lá em cima via êle o Espírito Criador, a grande alma, onde se refugiam as almas dispersas na face dêste mundo, e perseguida pelo demônio da ira, e da vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade entregou o azorrague da flagelação do virtuoso.

Bernardo caminhava a passo firme para a escada da fôrca. Estavam contraídas as respirações. Um gemido, menos sufocado, podia ser ouvido por quinze mil almas que vieram a contemplar aquêle aparelho de morte, segundo a lei, formulada pelas inspirações do Evangelho! Pelo código dos perdões! Pelos preceitos do Filho de Deus que morrera, perdoando!

- XIV -

Através da multidão abriu-se uma clareira para deixar passar um homem, que devia representar um prin-

cipal papel naquele festim da lei.

Convergiram tôdas as atenções para aquêle ponto.

Era Pedro Leite - ainda o pregoeiro da inocência de Bernardo, com a face cadavérica das longas noites que chorara sôbre o túmulo de seu filho único.

Quem disse a êste homem que Bernardo da Silva era um inocente?

Que fôrça oculta o arrasta a abençoar nas escadas da fôrca o assassino de seu filho?

Fenômenos ocultos da Providência! A voz de Deus, soando pelos lábios do mistério! Explicai-me as operações de Deus, e eu vos explicarei a inspiração sobrenatural que obriga a balbuciarem o perdão os lábios que beijaram morto um filho estremecido...

Pedro Leite aproximou-se do justiçado. Ninguém lhe embaraçou o passo.

Cheio de majestade, de poesia fúnebre, e de santo terror, falou assim:

- Eu venho pedir o seu perdão à beira do patíbulo. Fui eu que o arrastei até o tribunal em que foi condenado; mas não sou eu que o arrasto aqui. Bradei em favor da sua inocência. Pedi, há momentos, a suspensão dêste ato, em que minha dor será mais... muito mais prolongada que a sua. Não me ouviram: impuseram-me silêncio, e mandaram-me sair do santuário da lei, que resfolegava sangue pela bôca do seu sacerdote.

"Venho pedir o seu perdão, nas escadas da fôrca, e vazar o fel, que me devora a consciência, na consciên-

cia do juiz implacável que pede a sua cabeça a altos gritos!"

Ouviu-se um prolongado murmúrio. Era a onda popular que refervia sopesada entre as rochas da sua impotência moral, naqueles dias, em que o sangue dum plebeu continuava a operação regeneradora do sangue de Jesus Cristo.

Bernardo ouviu com presença de espírito a exclamação de Pedro Leite.

- Eu lhe perdôo!

Foram as suas palavras únicas.

(continua...)

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