Por Eça de Queirós (1878)
Joana voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luísa agarrou-o, leu:-".. o diâmetro do primeiro poço de exploração..."
- Não, não é isto! - exclamou toda contrariada.
- Então foi pra baixo pra o cano, minha senhora; não está! mais nada.
- Viu bem?
- Esquadrinhei tudo...
E Juliana continuava, desolada:
- Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia lá adivinhar...
- Bem, bem! - murmurou Luísa descendo.
Mas estava assustada; sentia mesmo uma suspeita indefinida... Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na véspera a Basílio, e que metera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, agitada.
D. Felicidade tirara o chapéu, acomodara-se na causeuse.
- Tu desculpas, hem? - fez Luísa.
- Anda, filha, anda! Que é?
- Perdi uma conta - respondeu.
Foi ao guarda-vestidos; achou logo o bilhete na algibeira... Aquilo serenou-a. A carta tinha ido para o lixo, decerto. Mas que imprudência!
- Bem, acabou-se! - disse sentando-se resignada.
E D. Felicidade imediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:
- Ora, eu vinha-te falar numa coisa. Mas vê lá! Olha que é segredo.
Luísa ficou logo sobressaltada.
- Tu sabes - continuou D. Felicidade, devagar, com pausas - que a minha criada, a Josefa, estápara casar com o galego... O homem é de ao pé de Tui, e diz que na terra dele há uma mulher que tem virtude para fazer casamentos que é uma coisa milagrosa... Diz que é o mais que há... Em deitando a sorte a um o homem entra-lhe uma tal paixão que se arranja logo o casamento e é a maior felicidade.
Luísa tranqüilizada, sorriu.
- Escuta - acudiu D. Felicidade -, não te ponhas já com as tuas coisas...
No seu tom grave havia um respeito supersticioso.
- Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, outros que nãofaziam caso delas, maridos que tinham amigas; enfim toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens começam a esmoecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo beiço... A rapariga contou-me isso. Eu lembrei-me logo...
- De deitar uma sorte ao Conselheiro! - exclamou Luísa.
- Que te parece?
Luísa deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quase se escandalizou. Contou outros casos: um fidalgo que desonrara uma lavadeira; um homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma bêbeda... Em todos a sorte operara de um modo fulminante, produzindo um amor súbito e fogoso pela pessoa desprezada. Apareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam longe, voltavam, ávidos, a pé, a cavalo, na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados...
- Mas o galego - continuava ela muito excitada - diz que para ir à terra, falar à mulher, levar oretrato do Conselheiro, é necessário o retrato dele, o meu, é necessário o meu; ir falar, voltar quer sete moedas!...
- Oh! D. Felicidade! - fez Luísa repreensivamente.
- Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...
E erguendo-se:
- Mas são sete moedas! Sete moedas! - exclamou, arregalando os olhos.
Juliana apareceu à porta, e muito baixinho, com um sorriso:
- A senhora faz favor?
Chamou-a para o corredor, em segredo:
- Esta carta. Que vem do hotel.
Luísa fez-se escarlate.
- Credo, mulher! Não é necessário fazer mistérios!
Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lápis, escrita à pressa:
"Meu amor" - dizia Basílio - "por um feliz acaso descobri o que precisávamos, um ninho discreto para nos vermos...
E indicava a rua, o número, os sinais, o caminho mais perto.
...Quando vens, meu amor? Vem amanhã. Batizei a casa com o nome de Paraíso; para mim, minha adorada, é com efeito o Paraíso. Eu espero-te lá desde o meio-dia; logo que te aviste, desço.
Aquela precipitação amorosa em arranjar o ninho - provando uma paixão impaciente, toda ocupada dela - produziu-lhe uma dilatação doce do orgulho; ao mesmo tempo que aquele Paraíso secreto, como num romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionais; e todas as suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente sob uma sensação cálida, como flocos de névoa sob o sol que se levanta.
Voltou ao quarto, com o olhar risonho.
- Que te parece, hem? - perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéia ocupava tiranicamente.
- O quê?
- Achas que mande o homem a Tui?
Luísa encolheu os ombros; veio-lhe um tédio de tais enredos de bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga romântica, achava repugnante aquele sentimentalismo senil.
- Tolices! - disse com muito desdém.
- Oh, filha! Não me digas, não me digas! - acudiu desolada D. Felicidade.
- Bem, então manda, manda! - fez Luísa, já impaciente.
- Mas são sete moedas! - exclamou D. Felicidade, quase chorosa.
Luísa pôs-se a rir.
- Por um marido? Acho barato...
- E se a sorte falha?
- Então é caro!
D. Felicidade deu um grande "ai!" Estava muito infeliz, naquela hesitação entre os impulsos da concupiscência e as prudências da economia. Luísa teve pena dela, e, tirando um vestido do guarda-roupa:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.