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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da caleche, era ele que os representava em Cortes, ele, Gonçalo Mendes Ramires... E superiormente os representaria, mercê de Deus! Porque já as idéias o invadiam, viçosas e férteis. Na Vendinha, enquanto esperava que lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de sável, meditou, para a Resposta ao Discurso da Coroa, um esboço sombrio e áspero da nossa Administração na África. E lançaria então um brado à Nação, que a despertasse, lhe arrastasse as energias para essa África portentosa, onde cumpria, como glória suprema e suprema riqueza, edificar de costa a costa um Portugal maior!... A noite cerrara, ainda outras idéias o revolviam, vastas e vagas quando o trote esfalfado da parelha estacou no portão da Torre.

Ao outro dia (terça-feira) às dez horas, o Bento entrou no quarto do Fidalgo com um telegrama, que chegara à Vila de madrugada. Gonçalo pensou com um deslumbrado pulo do coração: - '~É do Governo!" - Era do Pinheiro, gritando pela Novela. Gonçalo amarrotou o telegrama. A Novela! Como poderia labutar na Novela, agora, todo na impaciência e no esforço da sua Eleição?... Nem almoçou sossegadamente - retendo, através dos pratos que arredava, um desejo desesperado de "contar ao Bento". E, sorvido o café num sorvo impaciente, atirou para VilaClara, a desafogar com o Gouveia. O pobre Administrador jazia de novo no canapé de palhinha, com papas na garganta. E toda a tarde na estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gonçalo exaltou os talentos do André, "homem de governo e de idéias, Gouveia!" - celebrou o Ministério Histórico, o único capaz de salvar esta choldra, Gouveia!" - desenrolou vistosos Projetos de Lei que meditava sobre a África, "a nossa esperança magnífica, Gouveia!"

- Enquanto o Gouveia, estirado, só rompia a mudez e a imobilidade para murmurar chochamente, apalpando o calor das papas:

- E a quem deve você tudo isso, Gonçalinho? Cá ao meco!

- Na quarta-feira, ao acordar, tarde, o seu pensamento saltou logo sofregamente para o AndréCavaleiro, que a essa hora, em Lisboa, almoçava no Hotel Central (sempre, desde rapaz, André se conservara fiel ao Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente através do silêncio da casa e da quinta, seguiu o Cavaleiro nos seus giros de chefe de Distrito, pela Baixa, pela Arcada, pelos Ministérios... Naturalmente jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da Justiça. Outro convidado certamente seria o José Ernesto, Ministro do Reino, condiscípulo do Cavaleiro, seu confidente político... Nessa noite, pois, tudo se decidia!

- Amanhã, pelas dez horas, tenho cá telegrama do André.

Nenhuma notícia chegou à Torre: - e o Fidalgo passou a lenta quinta-feira à janela, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria o moço do telégrafo, um rapaz gordo que ele conhecia pelo boné de oleado e pela perna manca. A noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou um moço a Vila-Clara. Talvez o telegrama arrastasse, esquecido, pela mesa daquela "besta do Nunes do Telégrafo"! Não havia telegrama para o Fidalgo. Então ficou certo de surgirem em Lisboa dificuldades! E toda a noite, sem sossego, numa indignação que rolava e crescia, imaginou o Cavaleiro cedendo molemente a outras exigências do Ministro - aceitando com servilismo para Vila-Clara a candidatura de algum imbecil da Arcada, de algum chulo escrevinhador do Partido!

Pela manhã injuriou o Bento, por lhe trazer tão tarde os jornais e o chá.

- E não há telegrama, nem carta?

- Não há nada.

Bem, fora traído! Pois nunca, nunca, aquele infame Cavaleiro transporia a porta dos Cunhais! De resto, que lhe importava a burlesca Eleição? Mercê de Deus que lhe sobravam outros meios de provar soberbamente o seu valor - e bem superiores a uma ensebada cadeira em S. Bento! Que miséria, na verdade, curvar o seu espírito e o seu nome ao rasteiro serviço do S. Fulgêncio, o obeso e horrendo careca! E resolveu logo regressar aos cimos puros da Arte, ocupar altivamente todo o dia no nobre e elegante trabalho da sua Novela.

(continua...)

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