Por Camilo Castelo Branco (1864)
"Agora, falo eu", disse o clérigo. "O instituto das Irmãs da Caridade é um santo instituto, nenhuma dúvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido contar dos heroísmos de caridade que as servas de S. Vicente de Paulo praticam. Assim é; mas a conquista do.Céu consegue-se com a virtude e a virtude é uma em toda a parte e em todas as situações. As Irmãs da Caridade são benquistas do Senhor, mas muitas almas elege o Senhor, sem as submeter à prova dos sacrifícios e abnegação do santo instituto do servo de Deus. A Srª D. Eulália, que Deus tem, era uma virtuosa, e piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e mãe não lhe tolheu que alcançasse o Paraíso com muitas obras boas que fez, sem as andar derramando pelo mundo. A mãe da Srª D. Mafalda foi outra senhora casada e muito amante de seu esposo; pois se a virtude é a profecia infalível da bem-aventurança, as duas virtuosas senhoras lá estão com Deus. E agora lhes direi eu o Que as santas pedem ao Senhor, vendo assim os seus filhos, a ouvirem o pobre padre pregar sem encomenda do sermão. Eu lhes digo que elas estão pedindo a Deus que os case, que os encha de bênçãos e de filhos. Vamos!, eu também levanto as minhas mãos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus!, permiti que a minha voz se junte à das santas que Vos pedem a felicidade destes dois filhos! Permiti que eu os veja ditosos e que estas lágrimas de velho mas enxuguem eles com a sua alegria!"
"Quando o sacerdote, majestoso pela sua postura, se voltou para nós, latejava o meu coração na face de Mafalda; e eu, inclinado sobre o rosto pálido da virgem, murmurava estas palavras:
"Sim, sim, meu Deus, ouvi as preces de nossas mães!"
"Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de nós e disse com jovial aspecto:
""Eu não quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos lá o Outono do Minho à nossa espera. Diga à fidalga o que determina."
"Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa que um escultor fantasiasse na contemplação e audição dos anjos e harmonias do Céu. O padre acudiu logo, exclamando alegremente:
"O noivo é quem decide! Sr. Afonso, quando partimos desta barafunda de Paris, que me põe os miolos a arder?.."
"Amanhã!", respondi eu.
"Amanhã!", exclamou Mafalda. "Pois sim, meu Afonso, amanhã... Temos lá as nossas árvores... a nossa infância...
"A nossa felicidade sem fim...", atalhei eu."
CONCLUSÃO
Entreluzia a manhã pelos resquícios e fendas das janelas do nosso quarto na estalagem da Sr. Joaninha de Guimarães.
Afonso de Teive disse:
- E dia: vou concluir
- Não é necessário - atalhei -, o restante sei eu –Mas não me prives por isso de ser eu o narrador da minha bem-aventurança.
Aquela mulher que eu te apresentei, negligentemente vestida, e amarrotada dos braços dos seus oito filhos, é minha prima Mafalda, a esposa da minha alma, a salvadora do meu coração, os olhos que me vêem pelos da minha mãe, a consciência da minha consciência, a retentora das minhas alegrias infantis, a mãe dos meus oito anjos, que minha santa mãe me enviou do Céu.
"Há dez anos que vejo amanhecer os meus dias como as aves, cantando o Senhor, e adorando-o como os cenobitas.
"Minha mulher, ao abrir-me os tesouros da sua alma, revelou-me também os tesouros da fé, as delícias da religião e a taça inexaurível dos sabores da caridade.
"Mafalda desaparece-me às vezes com os filhos mais velhos: eu vou procurá-la fora de casa com os mais novos nos braços, e descubro a piedosa valedora no cardenho de algum jornaleiro, à cabeceira das palhas nuas do enfermo, ao qual ela foi levar a cobertura e o alimento. Outras vezes são os meus filhos que levam o seu fatinho velho às crianças que estalejam de frio sobre o lajedo de uma cozinha sem lume.
"Se alguma hora falei como marido austero a minha mulher, a doce criatura respondeu-me com um sorriso; os meus queixumes são sempre causados pela pertinácia de ela entender no governo da casa com zelo convizinho da mortificação - Mafalda é rica; mas tem uma máxima indestrutível: "poupar para os pobres".
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.