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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

O furacão de neve foi instantâneo e fugitivo como um sopro que apaga uma vela. As pessoas que passeavam na esplanada de Ventuar tinham visto a fragata passando a todo o pano, juntamente com um brigue e uma pequena escuna. De repente abate-se o turbilhão de neve de vendaval. A gente tem apenas tempo de segurar os chapéus e de se abafar nos paletós. Quando, passado o furacão, tornam a olhar para o mar, vêem apenas o brigue e a escuna, seguindo tranquilamente: a fragata tinha desaparecido. Nem a ponta de um mastro era visível: o mar, um pouco grosso, balançava-se tranquilamente e trezentas pessoas estavam agonizando debaixo de água.

Que trezentos homens sãos, fortes e alegres, voltando ao país, à família, estejam à vista das suas casas; que passe um sopro de neve e que em alguns segundos os arroje para o fundo do mar, que o céu clareie e que o Sol imediatamente continue a brilhar, como se nada se tivesse passado – é lúgubre!

Tinha escrito estas linhas, e ia falar-lhes de algumas curiosas novidades literárias e artísticas, quando notícias inesperadas e surpreendentes me forçaram a voltar de novo à política.

Em primeiro lugar, a Rússia deu ontem a sua resposta definitiva à Inglaterra: não admite a livre discussão da totalidade ao tratado de paz e declara que, neste ponto, o seu interesse e a sua honra não lhe permitem nenhuma concessão. Portanto, o congresso não se reúne.

Em segundo lugar, Lord Derby deu hoje a sua demissão. Esta demissão, tantas vezes anunciada e contradita em ocasiões em que oferecia uma certa lógica, veio quando parecia quase absolutamente impossível.

Ninguém o sabia até ao momento em que, entrando ontem na Câmara dos Lordes, Lord Derby não se sentou no banco dos ministros e foi ocupar um lugar nos bancos da oposição. As suas explicações foram breves e feitas com uma solenidade triste: disse que até àquele dia estivera na mais estreita concordância de ideias com os seus colegas, mas que, tendo eles tomado ultimamente resoluções que lhe pareciam contrárias aos interesses do país, ele vira-se forçado, com mágoa, a separar-se dos seus colegas. Estas palavras causaram na Câmara uma inquietação extrema: que resoluções eram essas? Se Lord Derby, que fora no gabinete o sustentáculo da paz, se retirava, é que essas resoluções que o tornavam incompatível com os seus amigos tinham o carácter de um principio da guerra. Que seria? Estaria a esquadra em Constantinopla? Ter-se-ia tomado Galípoli?

Lord Beaconsfield, erguendo-se, pôs um termo às incertezas: começou por fazer o que se poderia chamar a oração fúnebre de Lord Derby: falou na amizade que durante trinta anos de vida pública o ligara a Lord Derby e que ele considerava uma das felicidades e honras da sua carreira; fez, com traços à romancista, como romancista que é, o retrato moral de Lord Derby; e as suas palavras demonstravam uma mágoa tão grave daquela separação e uma estima tão elevada pelo estadista que Lord Derby, sob uma emoção irreprimível, pôs as mãos sobre o rosto e soluçou. A Câmara, impressionada, assustada, não sabia se aquelas lágrimas eram pela perda dos seus amigos, se pelas desgraças que antevia ao seu país. Enfim, Lord Beaconsfield declarou que a resolução tomada e que tinha determinado a demissão de Lord Derby fora a chamada às armas dos corpos de reserva.

Desapontamento geral! O quê? Por uma simples medida preventiva, Lord Derby, o chefe da mais ilustre casa tory, separava-se dos tories? E que falta de lógica! Não fora Lord Derby que pelas suas exigências, aliás justificadas, fizera abortar o congresso? Podia ele pois reprovar que o Governo tomasse as precauções que exigiam logicamente os interesses ingleses desde que o congresso falhara? Constituído de boa ou má fé, o congresso era o único meio de trazer uma solução pacífica às questões pendentes, que, tendo ela falhado, só podem ser decididas pelas armas. Como é que Lord Derby, depois de ter pela sua política desarranjado essa solução pacífica, se opõe a que se adoptem prevenções para o caso do conflito armado?

A Inglaterra só podia defender os seus interesses ou com razões no congresso ou com canhões no campo de batalha: Lord Derby não quer ir ao congresso das razões e zanga-se porque o Governo, em consequência disso, se prepara a carregar as peças. Por que modo pretende ele então defender os interesses britânicos, de que ele há três anos é o porta-voz e o arauto? Nem pelo direito, nem pela força. Como então?

Lord Derby é um homem muito prático para cair numa tal inconsequência. Nem é de supor que vendo diante de si a crise que ele provocou, com razão, pela sua política queira fugir, por timidez e excesso de temperamento pacifico, às responsabilidades que ela traz. Há portanto outra coisa: isto é, a simples chamada da reserva não é toda a razão da demissão de Lord Derby. Se ele se separa dos seus colegas, é porque os seus colegas decerto decidiram alguma outra coisa, bem mais definitiva que uma simples precaução. O quê? That is the question. É o que se saberá dentro de dias.

(continua...)

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