Por Eça de Queirós (1925)
Arthur voltou logo para o Hotel. A cacophonia na Ode á Liberdade, torturava-o desde manhã, e como esperava lêr as outras poesias a Melchior, toda a tarde, curvado sobre o manuscripto, de lapis na mão — com a attenção esmiuçadora d'um jardineiro sobre um canteiro de rosas — catou cacophonias nos versos.
Melchior, muito pontual, encontrou-o ainda tra balhando :
— Com os versinhos a contas, hein
Sentou-se pesadamente na cama e retorcendo os bigodes :
— E que tal de mulheres, lá por Oliveira — Um horror !
— Pézinho descalço, cheirinho a suor ! — E re clinando-se com satisfação : — Não deixa de ter seu cabimento . . , ,
Arthur achou-o « grosseirão mas sorriu para o lisonjear—e confessou que desejava lêr-lhe a do vaue.
— Olhe que se faz tarde para o Unicersal ! — exclamou logo Melchior, pondo-se de pé. — Arriscamo-nog a não achar logar ! No Universal é muito serio !
Deu uma penteadela rapida no cabello, nos bigodes e olhando-se satisfeito ao espelho :
Verá que rapaziada ! Muito chic !
Arthur lembrava-se das descripções do Rabecaz : de certo ia encontrar no Universal litteratos, deputados, diplomatas, cantores, um mundo de civilisação superior — e um pouco envergonhado do seu fraque preto, quiz, ao menos, comprar luvas claras. — Homem ! — disse Melchior — tambem eu preciso de luvas !
Mas que ferro, tinha-lhe esquecido o dinheiro ! Arthur, immediatamente, antes d'entrar na loja, offereceu o seu porte-monnaie aberto. Que diabo, entre rapazes
— Você calha-me, Artur, você calha-me ! exclamou Melchior, com um impeto irreprimivel de gympathia.
E ambos, de luvas claras, subiram o Chiado, de braço dado — decididos tacitamente a estimaremse, ligados já por uma amizade nascente.
Tinha-se servido a sopa, quando entraram na sala do Hotel. E no primeiro relance, o aspecto das
mesas, com brilhos de vidros e de plaqués faiscando sob a luz crua dos lustres de gaz, os ramos de flores fazendo centro á ordenação das sobremesas, as pessoas bem vestidas que julgava illustres, as gravatas brancas dos creados, deram a Arthur um vivo deslumbramento, immobilisaram•no junto da porta, um pouco embaraçado, passando, com um gesto errante, os dedos pelo bigode. Mas Melchior, que se apossara de duas cadeiras ao pé d'um sujeito pallido, chamava-o, muito alto :
— Para aqui, amigo Arthur, ficamos aqui ao lado do Carvalhosa !
Ao adeantar.se, perturbado, com as palmas das mãos suadas, tropeçou n'um creado, que se voltou, furioso, e Melchior, immediatamente, apresentou-o ao snr. Carvalhosa, o illustre deputado.
— Eu conheci V. Ex.a em Coimbra — disse
Arthur com um esforço, córando,
Conhecera-o, quando Carvalhosa publicava meditações democraticas na Idéa, fazia discursos lyricos no theatro acaaemco e era iiiustre por vicios que lhe tinham deixado para sempre na face uma amarellidão d'hectico. No terceiro anno levara um R — e passara desde então a ser na Briosa o republicano mais ardente. Porém, nomeado deputado do governo por influencia d'um tio, apresentado em Lisboa a Pares do Reino, introduzido em algumas casas onde recitava, enthusiasmara-se peug
Instituições e concebera um respeito desmedido pela Monarchia. Tinha Ema gula immensa da pasta da Marinha — e fallava de papo sobre questões de politica, á porta da casa Havaneza, torcendo a ponta da pêra com os dedos queimados do cigarro. Era conhecido pelas suas imagens — safadas pelo uso de gerações, como velhos patacos do tempo do snr. D. João VI — e os jornaes faziam sempre preceder o seu nome do adjectivo inspirado !
Abaixou a cabeça a Arthur e fallou um momento a Melchior com condescendencia, como do alto d'uma nobre escadaria intellectual. Era da Provincia, vivia na Provincia e sentia-se bem, ao ouvil-o, que os proprietarios graves dos Arcos-de-Val-de-Vez deviam dizer d'elle na Assembleia, com admiração e desconfiança : — Grande cabeça, mas muito poeta !
— Então deixou Coimbra ? — perguntou elle a Arthur.
— Ha doas annos !
Melchior apressou-se a citar com verve :
Coimbra, terra d'encantos
Do Mondego alegre flÔr
Arthur terminou logo :
Venho pagar-te em meus cantos
Tributo d'antigo amor I
E o Carvalhosa emendou :
Venho pagar-te em escarros Tributo do meu rancor I
• — Bravo ! Bravo ! — exclamou Melchior com ruido. — Essa é das boas
Aquelle curto fragmento de dialogo, tambem pareceu a Arthur muito fino, muito da Capital, e recostou-se na cadeira, com uma satisfação commovida. Toda a sua vaidade se dilatava ao sentir-se alli, a uma mesa rica, entre individuos que suppunha personagens eminentes da Politica, das Letras ou da Finança ; todos os detalhes lhe agra-l davam— a luz forte do gaz, os molhos, a atten-t cão dos creados, os syphões, — mas movia os braços com um cuidado acanhado, como se receasse quebrar alguma cousa, observando-se, impondo-se modos delicados. A sua alegria foi completa, quando um sujeito que estava a seu lado e no qual não reparara, se voltou para elle e lhe disse com amabilidade :
— Então, mais descançadinho da sua jornada
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.