Por Eça de Queirós (1900)
Sim, decerto, fora custoso aquele mudo momento em que se sentara secamente, hirtamente, à borda da poltrona, junto da pesada mesa administrativa de S. Exa.. Mas mantivera muita dignidade e muita simplicidade...- "Sou forçado (dissera) a dirigir-me ao Governador Civil, à Autoridade, por um motivo de Ordem Pública..; E a primeira avença partira logo do Cavaleiro, que torcia a bigodeira, pálido: - "Sinto profundamente que não seja ao homem, ao velho amigo, que Gonçalo Mendes Ramires se dirija..." Ele ainda se conservava retraído, resistente, murmurando com uma frieza triste: - "As culpas não são decerto minhas..." E então o Cavaleiro, depois de um silêncio em que lhe tremera o beiço: "Ao cabo de tantos anos, Gonçalo, seria mais caridoso não aludir a culpas, lembrar somente a antiga amizade, que, pelo menos, em mim, se conservou a mesma, leal e séria". A esta sensibilizada invocação, ele volvera, com doçura, com indulgência: - "Se o meu antigo amigo André recorda a nossa antiga amizade, eu não posso negar que em mim também ela nunca inteiramente se apagou..." Ambos balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre os desacordos da vida. E quase insensivelmente se trataram por tu! Ele contou ao Cavaleiro a torpe ousadia do Casco. E o Cavaleiro, indignado como amigo, mais como Autoridade, telegrafara logo ao Gouveia um mandado forte para inutilizar o valentão dos Bravais... Depois conversaram da morte do Sanches Lucena, que impressionava o Distrito. Ambos louvaram a beleza da viúva, os seus duzentos contos. O Cavaleiro recordou a manhã, na Feitosa, em que entrando pela porta pequena do jardim a surpreendera, dentro de um caramanchão de rosas, a apertar a liga. Uma perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar com a D. Ana, apesar dos duzentos contos e da divina perna... - Já entre eles se restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era "tu Gonçalo, tu André, oh menino, oh filho!"
E fora André, naturalmente, que aludira à desaparição do Deputado do Governo, à surpresa do circulo vago... Ele então, com indiferença, estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda da mesa, murmurara:
- Sim, com efeito... Vocês agora devem estar embaraçados, assim de repente...
Mais nada! Apenas estas indolentes palavras, murmuradas através do rufo. E o Cavaleiro, logo, sem preparação, apressadamente, empenhadamente, lhe oferecera o círculo! - Pousara os olhos nele com lentidão, como para o penetrar, o escutar... Depois, insinuante e grave:
- Se tu quisesses, Gonçalo, não estávamos embaraçados...
Ele ainda exclamara, com surpresa e riso:
- Como, se eu quisesse?
E o André, sempre com os olhos nele cravados, os largos olhos lustrosos, tão persuasivos:
- Se tu quisesses servir o País, ser Deputado por Vila-Clara, já não estávamos embaraçados,Gonçalo!
Se tu quisesses... E perante esta insistência que rogava, tão sincera e comovida, em nome do País, ele consentira, vergara os ombros:
- Se te posso ser útil, e ao País, estou às vossas ordens.
E eis a fenda transposta, a áspera fenda, sem rasgão no seu orgulho ou na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando pelo gabinete, desde a estante carregada de papéis até a varanda - que André abrira, por causa dum cheiro persistente de petróleo entornado na véspera. André tencionava partir nessa noite para Lisboa - para conferenciar com o Governo, depois daquela inesperada desaparição do Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonçalo como único Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial pelo nome, pelo talento, pela influência, pela lealdade. E eis a eleição consumada! De resto (declarara o Cavaleiro, rindo) aquele Circulo de Vila-Clara constituía uma propriedade sua - tão sua como Corinde. Livremente, poderia eleger o servente da Repartição que era gago e bêbedo. Prestava pois um serviço esplêndido ao Governo. à Nação, apresentando um moço de tão alta origem e de tão tina inteligência... Depois acrescentara:
- Não tens a pensar mais na eleição. Vais para a Torre. Não contas a ninguém, a não ser aoGouveia. Esperas lá, muito quietinho, telegrama meu de Lisboa. E, recebido ele, estás Deputado por Vila-Clara, anuncias a teu cunhado, aos amigos... Depois, no domingo, vens almoçar comigo a Corinde, às onze.
Então ambos se apertaram num abraço que fundiu de novo, e para sempre, as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o acompanhara, André, repenetrando timidamente no Passado. murmurou com um riso pensativo: - "Que tens tu feito ultimamente, nessa querida Torre?" E, ao saber da Novela para os Anais, suspirou com saudade dos tempos de Imaginação e de Arte em Coimbra, quando ele amorosamente lapidava o primeiro canto dum poema heróico, o Fronteiro de Ceuta. Enfim outro abraço - e ali voltava Deputado por Vila-Clara.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.