Por Eça de Queirós (1887)
- Homens que me haveis acolhido! A verdade abunda nos vossos espíritos, como a uva abunda nas videiras! Vós sois três torres que guardais Israel entre as nações; uma defende a unidade da religião; outra mantém o entusiasmo da pátria; e a terceira, que és tu, venerando filho de Beotos, cauto e ondeante como a serpente que amava Salomão, protege uma cousa mais preciosa, que é a ordem!... Vós sois três torres; e contra cada uma o Rabi de Galiléia ergue o braço e lança a primeira pedrada! Mas vós guardais Israel e o seu Deus e os seus bens, e não vos deveis deixar derrocar!... Em verdade, agora o reconheço, Jesus e o judaísmo nunca poderiam viver juntos.
E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara frágil, disse, mostrando os dentes brancos:
- Por isso o crucificamos!
Foi como uma faca acerada que, lampejando e salvando, se viesse cravar no meu peito! Arrebatei, sufocado, a manga do douto historiador:
- Topsius! Topsius! Quem é esse Rabi que pregava em Galiléia e faz milagres e vai ser crucificado?
O sábio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se eu lhe perguntasse qual era o astro que, dalém d9s montes, traz a luz da manhã. Depois, secamente:
- Rabi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazaré em Galiléia, a quem alguns chamam Jesus e outros também chamam o Cristo.
- O nosso! - gritei, vacilando, como um homem atordoado. E os meus joelhos católicos quase bateram as lajes, num impulso de ficar ali caído, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chamejou por todo o meu ser o desejo de correr ao seu encontro e pôr os meus olhos mortais no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!... E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha num áspero vento, tremia a minha alma num terror sombrio, o terror do servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado, com jejuns e terços, para afrontar a face fulgurante do meu Deus? Não! Oh mesquinha e amarga deficiência da minha devoção! Eu não beijara jamais, com suficiente amor, o seu pé dorido e roxo na sua Igreja da Graça! Ai de mim! Quantos domingos, nesses tempos carnais em que a Adélia, sol da minha vida, me esperava na Travessa dos Caídas, fumando e em camisa, não maldissera eu a lentidão das missas e a monotonia dos septenários! E sendo assim, do crânio à sola dos pés uma crosta de pecado, como poderia meu corpo não tombar, já réprobo, já tisnado, quando os dous globos dos olhos do Senhor, como duas metades do céu, se voltassem vagarosamente para mim?
Mas ver Jesus! Ver como eram os seus cabelos, que pregas fazia a sua túnica, e o que acontecia na terra quando os seus lábios se abriam!... Para além desses eirados onde as mulheres atiravam grãos às pombas; numa dessas ruas de onde me chegava claro e cantado o pregão dos vendedores de pães ázimos, ia passando talvez, nesse temeroso instante, entre barbudos, graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda amarrada nas mãos. A lenta aragem que balançava na janela o ramo de madressilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de roçar a fronte do meu Deus, já ensangüentada de espinhos! Era só empurrar aquela porta de cedro, atravessar o pátio onde gemia a mó do moinho doméstico, e logo, na rua, eu poderia ver, presente e corpóreo, o meu Senhor Jesus tão realmente e tão bem como o viram São João e São Mateus. Seguiria a sua sacra sombra no muro branco - onde cairia também a minha sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem - beijaria a pegada ainda quente dos seus pés! E abafando com ambas as mãos o barulho do meu coração, eu poderia surpreender, saído da sua boca inefável, um ai, um soluço, um queixume, uma promessa! Eu saberia então uma palavra nova do Cristo, não escrita no Evangelho; e só eu teria o direito pontifical de a repelir às multidões prostradas. A minha autoridade surgia, na Igreja, como a de um testamento novíssimo. Eu era uma testemunha inédita da paixão. Tomava-me S. Teodorico Evangelista!
Então, com uma desesperada ansiedade, que espantou aqueles orientais de maneiras mesuradas, eu gritei:
- Onde o posso ver? Onde está Jesus de Nazaré, meu Senhor?
Nesse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandálias, veio cair de bruços nas lajes, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da túnica; as suas costelas magras arquejavam; por fim murmurou, exausto:
- Amo, o Rabi está no Pretório!
Gade emergiu da sua oração com um salto de fera, apertou em torno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabelos revoltos. Topsius traçara a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solenidade de um mármore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel à de Abraão, bradoume triunfantemente:
- Ao Pretório!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.