Por Eça de Queirós (1912)
Começou então para Cristóvão uma vida estável, quieta, junto daquele rio. Nas horas em que não havia gente, esperava sentado numa pedra, olhando correr a água, ou então alargava o caminho e construía à beira da água, com pedras, como um cais onde a gente lhe subia para as costas. A cada instante, porém, havia alguém a passar – e como Cristóvão era já conhecido, os viandantes, do alto da colina, vinham logo gritando: “Eh gigante!” Alguns, mais brutais, se ele se demorava, rompiam em injúrias. Outros, que o vinho bebido nas tabernas da estrada excitava, arrepelavam-lhe os cabelos. Ele, quieto e humilde, fendia as águas. Por vezes era um cavaleiro que, com a sua pesada armadura, lhe esmagava os ombros, e rindo o espicaçava com os acicates. Outras vezes era uma dama que se horrorizava com a fealdade de Cristóvão, tapava a face, e apenas passada para a outra margem lhe fugia das mãos, mostrando o seu nojo. O maior trabalho era com os animais. Havia rebanhos que levavam todo um dia a passar. Os ginetes de guerra, furiosos, mordiam-lhe os braços. E os galgos, latindo, queriam saltar para o rio, entre a indignação dos fidalgos, que atiravam pedras a Cristóvão. Nenhum esforço custava ao bom gigante. Passava os fardos mais duros, grossas barricas de vinho. pedras enormes para a construção das abadias. Passou touros, que iam para um curro de fidalgos. E passou um bando de leprosos, que fugiam de uma cidade, e lhe deixavam sobre a pele o pus das duas fístulas.
Se lhe não pagavam, baixava a cabeça, saudando com humildade. Se lhe pagava, beijava a escassa moeda de cobre: - e guardava debaixo de uma pedra esse dinheiro, para o repartir com os mendigos.
Assim vivia desde longos anos. A sua cabeça já se vergava, os seus braços já não eram tão fortes. Por vezes, sob os grandes fardos, gemia lamentavelmente. Todos os seus membros estavam como troncos nodosos, inchados pela umidade constante. De todo ele saía um cheiro a vasa e a limo. E as suas pernas, sempre na água, tinham um tom verde, como as estacas de uma levada.
O seu leito de folhas secas era-lhe doce, e quando sentia vozes que o chamavam, era com um gemido que se erguia. Já lhe levava o dobro do tempo a cortar a corrente – e por isto eram constante as injúrias que recebia. Para se apoiar na água, sentindo que suas forças diminuíam, teve de fazer um grande bastão aguçado, com um tronco. E cada Inverno pensava, com inquietação, se a força lhe sobraria para fender a corrente furiosa do rio mais cheio.
Agora, apenas passava os viajantes, logo se vinha deitar. E chegou mesmo a pedir, por caridade, que lhe deixassem um pouco de vinho, para tomar nas noites mais duras, como um cordial que o amparasse. Oh! muito pouco, um pichel somente... Ele, cautelosamente, o pouparia.
Ora uma noite de grande Inverno, em que ventava, nevava, e o rio muito cheio mugia furiosamente, Cristóvão, já muito velho, trôpego, com feridas nas pernas, dormia no seu chão molhado – quando fora, na noite agreste, uma voz pequenina e dolorida gritou: “Cristóvão! Cristóvão!”
Com um gemido, logo se ergueu aquele bom gigante. Abriu o loquete da sua choça. E viu diante de si uma criancinha, pisando descalça a relva, com os cabelos a esvoaçar no vento e na chuva, e apertando sobre o peito, com as mãozinhas, a camisa muito branca que o cobria. Espantado, com lágrimas, Cristóvão abriu os braços.
— Oh meu menino, quem te trouxe?
E tremendo toda, no frio e na neve, a criancinha murmurou:
— Cristóvão, Cristóvão, estou sozinho e perdido, e por quem és te peço que me leves para a casa do meu pai!
Já Cristóvão arrancara dos ombros a pele em que se agasalhava, e envolvia nela o corpinho tenro que tremia.
— Oh meu menino, onde é a casa do teu pai?
A criancinha estendeu o braço para o outro lado, onde os montes negros se erguiam. E murmurou muito baixo:
— Além, para além, muito longe...
Mas um espanto tomava Cristóvão. Porque debaixo da pele negra de cabra, de
novo a camisinha da criança aparecia rebrilhando na noite negra, toda branca de linho.
Muito humilde, baixando para ele a face, o bom gigante disse, muito humilde:
— Oh meu menino, vem que eu te levo ao colo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.