Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

A todos o caso parecia "de estrondo"! E subitamente um silêncio esmagou a Arcada, trespassada de emoção. Na varanda, entre as vidraças abertas vagarosamente, aparecera o Cavaleiro com o Fidalgo da Torre, conversando, risonhos, de charutos acesos. Os largos olhos do Cavaleiro pousaram logo, com malícia, sobre "os rapazes" apinhados em pasmo à borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de visão. S. Exa. remergulhara no gabinete - o Fidalgo também, depois de se debruçar na varanda, espreitar a caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:

- Viva! Reconciliação!

- Acabou a guerra das Rosas!

- E as correspondências da Gazeta do Porto?...

- É que houve peripécia tremenda!

- Temos o Gonçalinho Administrador de Oliveira!

- Upa, Exmo Sr., upa!

Mas de novo emudeceram. O Cavaleiro e o Fidalgo reapareciam, numa enfronhada conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidência da varanda escancarada. Depois o Cavaleiro, com uma familiaridade carinhosa, bateu nas costas de Gonçalo - como se publicasse a sua reconciliação diante da praça maravilhada. E outra vez se sumiram, nesse passear conversado e íntimo, que os trazia da sombra do gabinete para a claridade da janela, roçando as mangas, misturando o fumo leve dos charutos. Embaixo o bando crescia, mais excitado. Passara o Melo Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado; e, chamados com ânsia, cada um correra, devorara esgazeadamente a novidade, embasbacara para o velho balcão de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do relógio do Governo Civil já se acercavam das quatro horas. Os dois Vila-Velhas, outros "rapazes", estafados, retrocederam às cadeiras de verga da Tabacaria. O Dr. Delegado, que jantava às quatro e sofria do estômago, despegou desconsoladamente dos Arcos, suplicando ao Pestana seu vizinho "que aparecesse ao café para contar o resto... "Melo Alboim, esse, enfiara para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do largo; e da janela, disfarçado por trás da mulher e da cunhada, ambas de chambres brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Exa. com um binóculo. Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas. Então o Barão das Marges, na sua impaciência

borbulhante, decidiu subir ao Governo Civil, "para farejar!..."

Mas nesse momento André Cavaleiro assomava de novo à varanda - sozinho, com as mãos enterradas no jaquetão de flanela azul. E quase imediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil, atravessou a praça, com os estores verdes meio corridos, descobrindo apenas, àqueles cavalheiros ávidos, as calças claras do Fidalgo.

- Vai para os Cunhais!

Lá o apanhava poiso Barrolo! E todos apressaram o bom Barrolo a que montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances daquela paz histórica! O Barão das Marges até lhe segurou o estribo. Barrolo, alvoroçadamente, trotou para o largo de El-Rei.

Mas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhais, seguia para a Vendinha, onde decidira jantar, dando um descanso à parelha esfalfada. E logo depois das últimas casas da cidade subiu os estores, respirou deliciosamente, com o chapéu sobre os joelhos, a luminosa frescura da tarde - mais fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as tardes da sua vida... Voltava de Oliveira vencedor! Furara enfim através da fenda, através do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se esgaçassem nas asperezas estreitas da fenda!... Abençoado Gouveia, esperto Gouveia! E abençoada a esperta conversa, na véspera, pela Calçadinha de Vila-Clara!...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5556575859...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →