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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Silvestre acompanhou-me aos banhos da Póvoa e já vinha com todos os sintomas de caquexia, resultante da imobilidade, e cansaço das molas digestivas. Retirou-se para a província logo que os primeiros banhos e as primeiras perdas ao jogo lhe molestaram o corpo e o espírito. De lá me escreveu, contando os progressos da cabeça da doença e prognosticando o seu próximo fim. Nesta carta prometia o meu amigo legar-me os seus papéis, com plena autorização de divulgá-los, se eu visse que podiam ser de proveito para a iniciação da mocidade. À maneira do moralista Duclos, dizia ele: “J’ai vécu, je voudrais être utile à ceux qui ont à vivre.

Poucos meses depois recebi da mão de um almocreve uma chapeleira de couro repleta de embrulhos, que me enviava a Sra. D.Tomásia, e uma carta do sargento-mor asseverando-me que seu genro morrera como um passarinho - a morte do justo; com a diferença que não ajustou contas com os credores, para quem a salvação do meu amigo é coisa muito duvidosa...

Na carta do saudoso sogro vinha o seguinte soneto, que o moribundo fizera, à imitação dos distintos génios de ambos os sexos, que sonetearam à hora da morte, tais como a poetisa D. Catarina Balsemão e Bocage.

O soneto reza assim:

Abri meu coração às mil quimeras;

Encheram-mo de fel, e tédio, e alma,

Tive, em paga do amor, riso de infama...

Ai!, pobre coração!, quão tolo eras!

Dobrei-me da razão às leis austeras;

Quis moldar-me ao viver que o mundo ama

O escárnio, a detracção me suja a fama,

E a lei me pune as intenções severas.

Cabeça e coração senti sem vida,

No estômago busquei uma alma nova

E encontrá-lo pensei... Crença perdida!

Mulher aos pés o coração me sova;

Foge ao mundo a razão espavorida;

E por muito comer eu desço à cova!

Bem se vê que o soneto era o da morte. Um grande merecimento tem ele: é ser o último.

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