Por Eça de Queirós (1887)
- Todavia, esse Rabi de Galiléia deve decerto morrer, porque é um mau cidadão e um mau judeu! Não o ouvimos nós aconselhar que se pague o tributo a César? O Rabi estende a mão a Roma; o romano não é o seu inimigo. Há três anos que prega, e ninguém jamais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar o estrangeiro. Nós esperamos um messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, néscio e verboso, declara que traz só o pão da verdade! Quando há um pretor romano em Jerusalém; quando são lanças romanas que velam às portas do nosso Deus, a que vem esse visionário falar do pão do céu e do vinho da verdade? A única verdade útil é que não deve haver romanos em Jerusalém!...
Osânias, inquieto, olhou a janela cheia de luz, por onde as ameaças de Manassés se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria friamente. E o discípulo ardente de Judas de Gamala clamava, arrebatado na sua paixão:
- Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperança do reino do céu, é fazer-lhes esquecer o dever
forte para com o reino da terra, para esta terra de Israel que está em ferros, e chora e não quer ser consolada! O Rabi é traidor à Pátria! O Rabi deve morrer!
Trêmulo, agarrara a espada; e o seu olhar alargava-se, com uma fulguração de revolta, como chamando avidamente os combates e a glória dos suplícios.
Então Osânias ergueu-se apoiado a um bastão que rematava numa pinha de ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuviar a sua velhice leviana. E começou a dizer, de manso e tristemente, como quem através do entusiasmo e da doutrina aponta o mandato iniludível da necessidade:
- Decerto, decerto, pouco importa que um visionário se diga messias e filho de Deus; ameace destruir a lei e destruir o templo. O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da sua eternidade... Mas, oh Manassés, as nossas leis são suaves; e não creio que se deva ir acordar o carrasco a Garebe, porque um Rabi de Galiléia, que se lembra dos filhos de Judas de Gamala pregados na cruz, aconselha prudência e malícia nas relações com o romano! Ó Manassés, robustas são as tuas mãos; mas podes tu, com elas, desviar a corrente do Jordão, da terra de Canaã para a terra da Tracaunítida? Não. Nem podes também impedir que as legiões de César, que cobriram as cidades da Grécia, venham cobrir o país de Judá! Sábio e forte era Judas Macabeu, e fez amizade com Roma... Porque Roma é sobre a terra como um grande vento da natureza; quando ele vem, o insensato oferece-lhe o peito e é derrubado; mas o homem prudente recolhe à sua morgada e está quieto. Indomável era a Galácia; Filipe e Perseu tinham exércitos na planície; Antíoco, o Grande comandava cento e vinte elefantes e carros de guerra inumeráveis... Roma passou; deles que resta? Escravos, pagando tributos...
Curvara-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois, fixando sobre nós os olhos miúdos que dardejavam um brilho inexorável e frio, prosseguiu, sempre de manso e sutil:
- Mas em verdade vos digo, que esse Rabi de Galiléia deve morrer! Porque é o dever do homem que tem bens na terra e searas, apagar depressa com a sandália, sobre as lajes da eira, a fagulha que ameaça inflamar-lhe a meda... Com o romano em Jerusalém, todo aquele que venha e se proclame Messias, como o de Galiléia, é nocivo e perigoso para Israel. O romano não compreende o reino do céu que ele promete; mas vê que essas prédicas, essas exaltações divinas, agitam sombriamente o povo dentro dos pórticos do templo... E então diz: "na verdade este templo, com o seu ouro, as suas multidões, e tanto zelo, é um perigo para a autoridade de César na Judéia..." E logo, lentamente, anula a força do templo diminuindo a riqueza, os privilégios do seu sacerdócio. Já para nossa humilhação, as vestes pontificais são guardadas no erário da Torre Antônia; amanhã será o candelabro de ouro! Já o pretor usou, para nos empobrecer, o dinheiro do Corbã! Amanhã os dízimos da colheita, o dos gados, o dinheiro da oferenda, o óbolo das trombetas, os tributos rituais, todos os haveres do sacerdócio, até as viandas dos sacrifícios, nada será nosso, tudo será do romano! E só nos ficará o bordão para irmos mendigar nas estradas de Samaria, à espera dos mercadores ricos da Decápola... Em verdade vos digo, se quisermos conservar as e os tesouros, que são nossos pela antiga lei, e que fazem o esplendor de Israel, devemos mostrar ao romano, que nos vigia, um templo quieto, policiado, submisso, contente, sem fervores e sem Messias!... O Rabi deve morrer!
Assim diante de mim falou Osânias, filho de Beotos, e membro de Sanedrim.
Então o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverência as mãos sobre o peito, saudou três vezes aqueles homens facundos. Gade, imóvel, orava. No azul da janela uma abelha cor de ouro zumbia, em tomo da flor de madressilva. E Topsius dizia com pompa:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.