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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur agradeceu, commovido. Melchior foi a um pequeno lavatorio que havia ao canto, lavou as mãos e approximando-se, a puxar as calças para a cinta :

— Ámanhã, por exemplo, hein

— Perfeitamente. Estou no Hotel Hespanhol.

— Oh, Esteves, esses livros que ahi mandaram para annunciar, leva-os ao Salomão, mas não os largues a menos de tres tostões cada um, pelo amor de Deus ! E voltando-se para Arthur : Andiamo ? Ã porta, porém, lamentou não poder acompanhar Arthur ; tinha um rendez-vous.

— Sabe o caminho, não é verdade ? Bem. ímanhã, ás 11, no Hespanhol ! Almocinho simples ! Alt Tight ! Creado de V. Ex.a.

Mas não veio na manhã seguinte, nem ao outro dia. E Arthur, já inquieto, e querendo ao mesmo tempo aproveitar a opportunidade de mostrar estyIo, resolvera escrever-lhe um bilhete muito litterario :

De certo os altos trabalhos Nesse rochedo de Sisypho, que se chama a imprensa, têm-no absorvido e esqueceu-se de que prometteu vir Partilhar commigo do leite e castanhas, de que fallí) o divino Virgi110 . . . ». Tinha fechado o sobrescripto e limpava com agua de colonia uma nodoa do fraque preto, para sahir, quando a porta se devagar e appareceu Melchior.

Ia-lhe justamente mandar carta . — exclamou Arthur.

Melchior allegou affazeres, uma pessoa das suas relações que estivera doente . . .

— Mas estava a limpar o fatiOh0, pelo amor de Deus, não se interrompa ! — minou o fraque e observou como entendedor : —--jsso, só com benzina.

Arthur córou, atirou o fraqoo para uma cadeira e negligentemente :

—É um fraque velho— disse—•— tenho de mandar

fazer fato .. . . serio :

Melchior tomou um ar muita

— Com franqueza, aconselha-lh'o. Em Lisboa é necessario andar bem vestido. Que tal lhe parece

isto ? — E rodava nos calcannores, devagar, mostrando o fato de cheviote clar0-• — Muito chic, não é verdade ? Pois, aqui p'ra —s, mas não o diga, Por quem é, não o diga . . . Dezzasseis mil réis. No Strauss eram quarenta. Heb Que espiga !

E em conclusão, provou-lhe que devia fazer fato no « seu homem que era o Victorino, o Victorino dos Calafates.

— Está decidido, hein Vamos ao Victorino ?

Arthur acceitou logo, com reconhecimento — e desceram para o almoço.

O creado pareceu revêr com alegria o sô Melchiorzinho. Melchior tambem se regosijou d'encontrar o Manuel ; perguntou-lhe mesmo se ainda estava no hotel o Vicente . . . E a Justina que era tão bem feitinha Ah, o Hespanhol já não era o mesmo ! Era egualmente a opinião do Manuel. E tiveram ambos um bamboleamento saudoso de cabeça, deitando o olhar desanimado pela sala, como na muda contemplação de ruinas.

— Uste,d é que sabe, — suspirou o Manuel — usted é que sabe !

O almoço foi longo, copioso, muito saboreado. E, com grande prazer d'ATthur, Melchior fallou longamonte de Lisboa. O que havia de melhor, segundo elle, era a bella rapaziada ! Porque lá isso de soirécs, bailes, — historias ! No fim, para que se estava n'este mundo P 'ra gosar, ter amigos alegres, um bom jantarzinho, uma pandegazinha, umas mulherzinhas de vez em quando. E para isso, não havia como Lisboa !

— O amigo verá ! exclamou, batendo no hombro d'Arthurq

Parecia gymplthisar com elle ; ao café, propozlhe mesmo que deixassem as excel!encias ; o melhor era você cá, você lá, e liberdadezinha . • • Elle gostava de liberdade. •

— Como todo o homem intelligente e que tem o espirito moderno disse Arthur, que procurava com insistencia elevar o tom do dia,logo.

— Não é lá de politica que eu fallo, acudiu Melchior, chupando o fundo do calice de cognac isso são historias! O que eu digo é cá esta liberdadezinha ! Uma cavaqueira com um bom amigo, uma comidazinhan'um hotel conhecido • • • bella rapaziada. O mais é parvoíce !

Arthur que a preoccupação poetica torturava, disse então, um pouco embaraçado, com um sorriso artificial :

—A proposito de liberdade . . . Se o meu amigo não acha maçada . . . queria que me desse a sua opinião sobre alguns versos . . . sobretudo uma Ode á Liberdade. Talvez não desgoste

Melchior bebeu d'um trago outro calice de cognac e limpando precipitadamente os beiços :

— Ás ordens !

E levantaram-se ambos.

Arthur, ao subir para o quarto, sentia « colicas

Ia emfim mostrar a sua litteratura a um jornalista, a um critico, a um lisboeta. Abriu o manuscripto com uma tremura nas mãos :

— Que tal lhe parece o titulo, Esmaltes e Joias ? Melchior, gae se sentara aos pés da cama, pesado do almoço, disse, agradado :

— Tem chic.

Arthur procurou a folha, cuspilhou, e começou :

ODE Á LIBERDADE

Eil-a que se ergue na collina santa A Santa Liberdade.

Contempla o céu e desgrenhada canta:

Acorda, humanidade!

E seguia-se, no mesmo desenho estrophico, um longo monologo da Liberdade : amaldiçoava os Reis, bemdizia os povos ; dizia-se « virgem immaculada, visão aerea, pomba da arca e bonina do valle » ; promettia cearas aos humildes, gargalheiras aos grandes ; exaltava a tunica de Christo e as algemas de Spartacus ; e, brandindo no ar da manhã uma espada mystica, terminava clamando :

A hora já soou, a Aurora vem .

Baqueia a realeza I

E já se ouve na cidade além,

(continua...)

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