Por Eça de Queirós (1888)
- Tem seu chic...
Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um montão de livros: a Educação de Spencer ao lado de Beaudelaire, a Logica de Stuart Mill por cima do Cavalleiro da Casa Vermelha. No marmore da commoda havia outra garrafa de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem, mostrava uma enorme caixa de pó d'arroz no meio de plastrons e gravatas brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de frisar.
- E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?
- Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.
Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de pé de gallo, onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega, um Diccionario de Rimas...
E a visita á casa continuou.
Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho envidraçado abrigava melancolicamente um serviço barato de louça nova; e do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roupão de mulher.
- É sobrio e simples - exclamou o Ega - como compete áquelle que se alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, á cosinha!...
Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas; e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois lá em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o Jornal de Noticias na mão. Ega apresentou-a, n'um tom de farça:
- A sr.ª Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista culinaria da «Villa Balzac», e como se póde observar pelo papel que lhe pende das garras, cultora das boas letras!
A moça sorria, sem embaraço, habituada de certo a estas familiaridades bohemias.
- Eu hoje não janto cá, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom. Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de Santa Olavia, dá hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da innocencia, ou á vigilia da devassidão, aqui lhe ordeno que me tenha amanhã para meu lunch duas formosas perdizes.
E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber:
- Duas perdizesinhas bem assadas e bem córadinhas. Frias, está claro... O costume.
Travou do braço de Carlos, voltaram á sala.
- Com franqueza, Carlos, que te parece a «Villa Balzac»?
Carlos respondeu como a respeito do episodio da Hebrea:
- Está ardente.
Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho...
- Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as mãos enterradas nos bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu não tolero o bibelot, o bric-à-brac, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que diabo, o movel deve estar em harmonia com a idéa e o sentir
do homem que o usa! Eu não penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? Não ha nada que me faça tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de Francisco I recebendo pela
face conversas sobre eleições e altas de fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'aço, viseira cahida e crenças profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude propria. O
seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude é esta... - E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas magras para o ar. - Ora esta attitude é impossivel n'um escabello do tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o Champagne.
E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu:
- É excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob. - Que Jacob?
- O Jacob Cohen, o Jacob.
Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordação, e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho:
- É verdade! Então, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu infelizmente não poude ir.
Carlos contou a soirée. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas salas, n'um zum-zum dormente, á meia luz dos candieiros. O conde massara-o indiscretamente com a politica, admirações idiotas por um grande orador, um deputado de Mesão Frio, e explicações sem fim sobre a reforma da instrucção. A condessa, que estava muito constipada, horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opiniões da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra é um paiz sem poetas, sem artistas, sem ideaes, occupando-se só de amontoar libras... Emfim, seccara-se.
- Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolação.
A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma saude muda os dois amigos beberam o Champagne - que Jacob arranjara ao Ega, para o Ega se regalar com Rachel.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.