Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Juliana pôs-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso para Joana:

- E então a que horas veio o primo da senhora?

- Veio logo que vossemecê saiu, estavam a dar as nove.

- Ah!

Desceu com a lamparina; e sentindo Luísa na alcova despir-se:

- A senhora não quer chá? - perguntou, com muito interesse.

- Não.

Foi à sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôs-se a olhar em redor, devagar, andando com um passo sutil... De repente agachou-se, ansiosamente: ao pé do divã uma coisa reluzia. Era uma travessa de Luísa, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rolos de cabelo.

- Quem anda aí? - perguntou da alcova a voz sonolenta de Luísa.

- Sou eu, minha senhora, sou eu; estive a fechar a sala. Muito boas noites, minha senhora!

Àquela hora Basílio entrava no Grêmio. Procurou pelas salas. Estavam desertas. Dois sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados em atitudes lúgubres, ruminavam os jornais; aqui, além, junto a mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma satisfação plácida; as janelas estavam fechadas, a noite quente, e o calor mole do gás abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, de repente, saiu o ruído irritado de uma altercação; trocavam-se injúrias, gritava-se: - Mente! O asno é você!

Basílio estacou, escutando. Mas subitamente, fez-se um grande silêncio; uma das vozes disse com brandura:

- Paus!

A outra respondeu com benevolência:

- É o que devia ter feito há pouco.

E imediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, obscenidades.

Basílio foi ao bilhar. O Visconde Reinaldo, de pé, apoiado ao taco, seguia com uma imobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas viu Basílio, veio para ele rapidamente, e muito interessado:

- Então?

- Agora mesmo - disse Basílio mordendo o charuto.

- Enfim, hem? - exclamou Reinaldo, arregalando os olhos, com uma grande alegria.

- Enfim!

- Ainda bem, menino! Ainda bem!

Batia-lhe no ombro, comovido.

Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna no ar, para dar com mais segurança o efeito, dizia com a voz constrangida pela atitude:

- Estimo, estimo, porque essa coisa começava a arrastar...

- Taque! Falhou a carambola.

- Não dou meia! - murmurou com rancor.

E chegando-se a Basílio, a dar giz no taco:

- Ouve cá...

Falou-lhe ao ouvido.

- Como um anjo, menino! - suspirou Basílio.

CAPÍTULO VI

Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luísa, dizendo à porta da alcova com a voz abafada, em confidência:

- Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta; diz que vem do hotel.

Foi abrir uma das janelas, em bicos de pés; e voltando à alcova com uma cautela misteriosa:

- E está à espera da resposta, está à porta.

Luísa, estremunhada, abriu o largo envelope azul com um monograma - dois BB, um púrpura, outro ouro, sob uma coroa de conde.

- Bem, não tem resposta.

- Não tem resposta - foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado ao corrimão, fumandoum grande charuto, e cofiando as suíças pretas.

- Não tem resposta? Bem, muito bom dia. - Levou o dedo secamente à aba do coco, e desceu,gingando.

Perfeito homem, foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.

- Quem bateu, Sra. Juliana? - perguntou-lhe logo a cozinheira.

Juliana resmungou:

- Ninguém; um recado da modista.

Desde pela manhã a Joana achava-lhe o ar esquisito. Sentira-a desde às sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azáfama! Ouvira-a cantar a Carta adorada, ao mesmo tempo que os canários, nas varandas abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu café à cozinha não palestrou como de costume; parecia preocupada e ausente.

Joana até lhe perguntou:

- Sente-se pior, Sra. Juliana?

- Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem.

- Como a veio tão calada...

- A malucar cá por dentro... A gente nem sempre está para grulhar.

Apesar de serem nove horas não quisera acordar a senhora. Deixa-a descansar, coitada! disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruído, sacudiu no corredor as saias, o vestido da véspera: e os seus olhos brilharam avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era o bilhete que Luísa escrevera a Basílio: "Por que não vens?... Se soubesses o que me fazes sofrer!..." Teve-o um momento na mão, o beiço, o olhar fixo num cálculo agudo; por fim tornou a metê-lo na algibeira de Luísa, dobrou o vestido, foi estendê-lo com muito cuidado na causeuse.

Enfim, mais tarde, sentindo o cuco dar horas, decidiu-se a ir dizer a Luísa, com uma voz meiga:

- São dez e meia, minha senhora!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5354555657...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →