Por Eça de Queirós (1900)
Torre lá precisou e lá veio..." Era o transbordante triunfo do Cavaleiro. O único homem que no Distrito se conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades - desarmava, emudecia, e encolhidamente se enfileirava no séquito louvaminheiro de S. Exa." Bem duro!... Mas, que diabo, havia superiormente o interesse do país! - E, tão admirável lhe apareceu esta razão, que a bradou com ardor na mudez da estrada: - "Há o país!..."
Sim, o país! Quantas reformas a proclamar, a realizar! Em Coimbra, no quinto ano, já se ocupara da Instrução Pública - duma remodelação do Ensino, todo industrial, todo colonial, sem latim, sem ociosas belas-letras, criando um povo formigueiro de Produtores e de Exploradores... E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro, quando repartiam os Ministérios, concordavam sempre: - "O Gonçalo para a Instrução Pública!" Por essas idéias poderosas, pelo saber acumulado, todo ele se devia à Nação - como outrora, pela força, os grandes Ramires armados. E pela Nação cumpria que o seu orgulho de homem cedesse ante a sua tarefa de cidadão...
Depois, quem sabe? Entre o Cavaleiro e ele afogadamente se enroscava todo um passado de camaradagem, apenas entorpecido - que talvez revivesse nesse encontro, os enlaçasse logo num abraço penetrante, onde os antigos agravos se sumiriam como um pó sacudido... Mas para que imaginar, remoer? Uma necessidade se sobrepunha, iniludível - a de comparecer logo de manhã em Oliveira, no Governo Civil, requerendo a supressão do Casco. Dessa pressa dependia o seu sossego de vida e de inteligência. Nunca ele lograria trabalhar na Novela, trilhar folgadamente a estrada de Vila-Clara, sabendo que em torno o outro, pelas quelhas e sombras, rondava com a espingarda. E para não regressar aos costumes bravios dos seus avós, circulando através do Concelho entre as carabinas dos criados, necessitava o Casco domado, imobilizado. Era pois inadiável correr ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois, quando ele se encontrasse no gabinete do Cavaleiro, diante da mesa do Cavaleiro - a Providência decidiria... - "A Providência decidirá!"
E, ancorado nesta resolução, o Fidalgo da Torre parou, olhou. Levado pela quente rajada de pensamentos, chegara à grade do Cemitério da Vila que o luar branqueava como um lençol estendido. Ao fundo da alameda que o divide, clara na claridade triste, o escamado Cristo chagado e lívido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e lívido no silêncio e na solidão, com uma tristissima lâmpada aos pés esmorecendo. Em torno eram ciprestes, sombras de ciprestes, brancuras de lápides, as cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando sobre os mortos; e no alto a lua amarela e parada. Então o Fidalgo sentiu um arrepiado medo do Cristo, das lousas, dos defuntos, da lua, da solidão. E despediu numa carreira até avistar as casas da Calçadinha, por onde descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no largo do Chafariz, um mocho piava na torre da Câmara, melancolizando o repouso da VilaClara apagada e adormecida. Mais impressionado, Gonçalo correu à taberna da Serena, recolheu os criados que esperavam jogando a bisca lambida. E com eles atravessou de novo a Vila até a cocheira do Torto - para recomendar que lhe mandassem à Torre, às nove horas da manhã, a parelha ruça.
Através do postigo, que se abrira com cautela no portão chapeado, a mulher do Torto gemeu, indecisa:
- Ai, meu Deus, não sei se poderá... Ele às nove tem um serviço... Pois não faria mais conta aoFidalgo aí pela volta das onze?
- As nove! - berrou Gonçalo.
Desejava apear cedo ao portão do Governo Civil, para evitar a curiosidade daqueles cavalheiros de Oliveira - que, depois do meio-dia, se juntavam na praça, vadiando por debaixo da Arcada.
Mas às nove e meia Gonçalo, que até o luzir da madrugada se agitara pelo quarto num tumulto de esperanças e receios - ainda se barbeava, em camisa, diante do vasto espelho de colunas douradas. Depois aproveitou a caleche para deixar na Feitosa os seus bilhetes de pêsames à bela viúva, à D. Ana. Ao meio-dia, esfaimado, almoçou na Vendinha, enquanto a parelha resfolegava. E batia a meia depois das duas quando enfim se apeou em Oliveira diante do portão do antigo convento de S. Domingos, ao fundo da praça, onde seu pai, quando chefe do Distrito, instalara faustosamente as repartições do Governo Civil.
Àquela hora, já na frescura e sombra da Arcada, que orla um lado da praça (outrora praça da Prataria, hoje praça da Liberdade), os cavalheiros de Oliveira mais desocupados, "os rapazes", preguiçavam, em cadeiras de verga à porta da Tabacaria Elegante e da loja do Leão. Gonçalo, cautelosamente, baixara as cortinas verdes da caleche. Mas no pátio do Governo Civil, ainda guarnecido de bancos monumentais do tempo dos frades, esbarrou com o primo José Mendonça, que descia a escadaria, fardado. Foi um assombro para o alegre capitão, moço esbelto, de bigode curto, picado levemente de bexigas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.