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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-Não, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando amanhã desceres à Estação, às quatro horas, encontras o teu precioso homem, com as tuas preciosas malas, metido nesse comboio que te leva ao Porto e à Capital...

Jacinto sacudiu os braços como quem se debate nas malhas duma rede:

-E se seguiu para Madri?

-Então, pôr esta semana, cá aparece em Tormes, onde encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu séquito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se amanhã encontrares na estação o Grilo, separa a minha mala negra, e o saco de lona, e a chaleira. O Grilo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para Guiães. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madri, com toda essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior... Eu amanhã falo ao Melchior.

Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:

-Mas como posso eu partir para Lisboa, amanhã, com esta camisa de dois dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao menos uma escova de dentes!

Fértil em idéias, estendi as mãos, num belo gesto tutelar:

-Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui cedo, pelas seis horas, chego a Guiães às dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do almoço e da cavaqueira com tia Vicência, imediatamente te mando pôr um moço um saco de roupa branca. As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem direito a elegâncias e a roupas bem cortadas. O moço, num bom trote, entra aqui às duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a Estação... Posso meter na mala uma escova de dentes.

-Ó Zé Fernandes! Então mete também uma esponja... E um frasco de água-de-colônia!

-Água de alfazema, excelente, feita pela tia Vicência...

O meu Príncipe suspirou, impressionado com a sua miséria esquálida, e esta dádiva de roupas:

-Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e de astros...

Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que “estavam preparadinhas as camas de suas Incelências”. E seguindo o bom caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Príncipe e eu, ainda há pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma abertura em arco, lôbrego arco de pedra, separava – duas enxergas sobre o soalho. Junto à cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima duma tripeça. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar nem alqueire.

Lentamente, com o pé, o meu supercivilizado amigo apalpou a enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre ela, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.

-E o pior não é ainda a enxerga – murmurou enfim com um suspiro. – É que não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de camisa engomada.

Pôr inspiração minha recorremos ao Melchior. De novo esse benemérito providenciou, trazendo a Jacinto, para ele desafogar os pés, uns tamancos – e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Príncipe lembrei que Platão quando compunha o Banquete, Vasco da Gama quando dobrava o Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas fortes, ó Jacinto!... E é só vestido de estamenha que se penetra no Paraíso.

-Tens tu – volveu o meu amigo secamente – alguma coisa que eu leia? Não posso adormecer sem um livro..

Eu? Um livro? Possuía apenas o velho número do Jornal do Comércio, que escapara à dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, que era a dos anúncios... E quem não viu então Jacinto, senhor de Tormes, acaçapado à borda da enxerga, rente da vela de sebo que se derretia no alqueire, com os pés encafuados nos socos, perdido dentro das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo num pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos Paquetes – não pode saber o que é uma intensa e verídica imagem do Desalento.

Recolhido à minha alcova espartana, desabotoava o colete, num delicioso cansaço, quando o meu Príncipe ainda me reclamou:

-Zé Fernandes...

-Diz.

-Manda também no saco um abotoador de botas.

Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao penetrar no Sono, que é um primo da Morte: ”Deus seja louvado!” Depois tomei a metade do Jornal do Comércio que me pertencia. -Zé Fernandes...

-Que é?

-Também podias meter no saco pós dos dentes... E uma lima das unhas... E um romance!

Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo:

-Zé Fernandes...

-Hem?

-Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!

IX

(continua...)

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