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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Não tive um sincero amigo que me desse dinheiro sem primeiro me furar as algibeiras para o aparar com uma das mãos, enquanto a outra mo emprestava, já cercado dos juros. Os meus mais dedicados amigos serviamme de indicadores de usurários, que me davam o décimo do valor da letra, que eu assinava. Era um jogo de ladrões; foram empréstimos da infâmia; só podem ser pagos com infames meios. A consciência de Santo António e de S. Francisco das Chagas não foram mais puras do que há-de ir a minha à presença do supremo Juiz. Creio que não devo nada, porque os juros que paguei excedem o capital: ora o que eu não devo só por absurdo posso pagá-lo com o que não for meu.

Parece-me que a lógica manqueja nesta argumentação. Seja como for, há muito quem deixe de pagar como Silvestre da Silva; mas não pagar, firmado em raciocínios, à primeira vista, irrefutáveis, nisso é que ele foi singular.

Direi o que me pareceu a vida doméstica do meu amigo.

D. Tomásia adorava-o e, sem o querer, polira-se por amor dele, a ponto de renunciar às suas antigas ocupações de portas adentro. Andavam à competência de quem engordaria mais; e, nas horas de dormir, excediam a toda a gente, menos um ao outro. Silvestre levara do Porto um cozinheiro, que contribuiu grandemente para derrancar o estômago do sargento-mor e dos padres. A mesa de Silvestre cobrou fama nos arredores, principalmente depois que o boticário, comensal insaciável, morreu de uma indigestão de almôndegas. Estava sendo no Verão que eu lá passei muito concorrida a casa de famílias remotas, entre as quais vi gente que o dilúvio respeitou, e eu também.

Posso jurar que Silvestre nunca deu sombra de ciúme a sua mulher. A segurança em que mutuamente se tinham é escusado dizê-la. D. Tomásia era folgazã, ria até arrebentar, fazia rir com as suas simplicidades: porém, no que diz respeito à invulnerabilidade da sua castidade de esposa, nunca ninguém, excepto a leitora casada, me deu tão alto grau de certeza. E era bela, a não poder ser mais, aquela mulher de trinta e dois anos! A mesma exuberância de carnes parecia enfeitar-lhe as formas duma certa majestade, que faria o terror de Vossa Excelência, menina de Lisboa, cuja cintura, como a quebrar-se, vai ondeando ao capricho da brisa.

Mais de uma vez tentei espertar o entorpecido engenho do meu amigo, recordando as nossas palestras literárias nos cafés e citando passagens mais conhecidas dos seus folhetins. Silvestre acordava por instantes, ouvia-me com aspecto melancólico de saudade; mas logo retomava o ar alarve e motejador de quem se bandeia com os mofadores das letras. Aqui se me depara agora um poesia, que ele, em hora bem-humorada, tirou desta mesma pasta para me ler. Quando a releio e aquilato a tendência satírica de Silvestre, mal posso perdoar ao mundo que o exilou da pátria luminosa do espírito para as estúpidas de uma vida cuja felicidade eu desejaria, como vingança, a quem ma aconselhasse. Aqui tem o leitor os versos:

Da oca ostentação as vãs negaças,

E os tantos seus ridículos tamanhos,

Fazem chorar e rir.

Ó eras primitivas dos rebanhos,

Ó tempos patriarcais

Deixai que possa esta alma reflorir!

A filha de Labão enchia a bilha;

Penélope, a rainha, ensaboava

Os carpins conjugais.

Lucrécia com a roca sirandava,

E muito grandes damas

Faziam tudo aquilo, e muito mais.

E era um gosto ver como elas tinham

As casas petrechadas, trastejadas,

Mourejadas, varridas!

Curavam por mãos suas as meadas,

Teciam suas teias

E tinham sempre as arcas bem fornidas.

Ao domingo, depois de ouvirem missa,

Cuidavam do jantar à portuguesa,

Farta sopa e cozido.

Depois, para ajudar a natureza,

Vão dar um passeio

Desintourindo o bucho entumecido.

Ao lusco-fusco, as portas se trancavam,

E marido e mulher, numa só alma,

E numa cama só,

Ressonavam em doce e mansa calma;

Sonhavam sonhos d’ouro,

E amor os estreitava em mago nó.

Ó tempos patriarcais!... Com que saudade

Eu, filho destas eras pataratas,

Invejo os meus avós!

Vivíeis pendurados dos rabichos,

Virtudes portuguesas!

O rabicho caiu, caístes vós.

E agora... ai!, que desmancho, que toleimas,

Que gente, que nação e que costumes

Os teus, ó Portugal!

Se há civilização, é só nos lumes,

Nos lumes-prontos só;

E, se teimam que há luz, é infernal!

Vão ver o que se passa em cada casa,

Que vive à lei de gótica nobreza,

E seus festins nos dá!

Se é jantar, o talher que vem à mesa,

O usuário o dera

Em troca do serviço que é do chá.

Se é baile, vai em troca do serviço

A inútil baixela do jantar;

E assim se faz figura;

E, se é jantar e chá, vão-se alugar

Ao sórdido judeu

Ambas as coisas, que absorve a usura.

As famílias do tom mais miserandas

Aquelas são que têm sege em cachoeira

E seu guarda-portão;

Que dos riscos de giz do merceeiro

Deduz-se que a barriga

É imolada às glórias do brasão.

São moda agora uns fofos vaporentos

Omelettes souflés denominados,

E omelettes sucrées;

Emblema são do tempo estes bocados,

De todo o ponto avessos

Ao estômago sincero português!

Pondera alguém que as raças se depuram

Ao passo que a tintura vermelhaça

Dos semblantes se some;

Dizem que a palidez extrema a raça;

(continua...)

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