Por Camilo Castelo Branco (1862)
Pospondo como coisas da segunda ordem as manifestações intelectuais de Silvestre, vou tentar, auxiliado pelos apontamentos dele, e notícias que alcancei, organizar a sucessão dos factos posteriores ao casamento.
Silvestre foi eleito presidente da Câmara de Carrazedo de Montenegro, que assim se denomina o conselho onde a ventura lhe bafeja o outono da vida. Estreou-se nas funções municipais mandando construir uma porca nova para o sino da igreja e compor uma estrada descalçada que lhe passava à porta; depois propôs em sessão que se pedisse ao Governo uma estrada do Porto a Chaves, com um ramal por Soutelo.
Este alvitre criou-lhe créditos, que foram um espeque à sua reputação algum tanto abalada com o facto de consumir os dinheiros do cofre municipal na reconstrução do caminho de sua exclusiva serventia. Mais meiga lhe soprou a aura popular, quando ele, mediante a solicitude do deputado, que fizera eleger, conseguiu que o conselho de Carrazedo absorvesse, na divisão do território, outro conselho limítrofe.
Nas próximas eleições, Silvestre da Silva, sem inculcar-se aos povos, nem recomendar sua candidatura, foi eleito deputado, contra a vontade das autoridades.
Tomásia, sabendo que seu marido se apartava dela no segundo ano de casada, fez tamanha e tão sincera choradeira que Silvestre desistiu da candidatura e fez que no escrutínio suplementar saísse deputado o juiz eleito, que também não serviu por se ter recusado a prestar o juramento, como legítima que era de entranhas.
O Governo chamou ao seu partido a influ6encia de Silvestre e conseguiu fazer eleger no seu círculo um candidato desconhecido dos eleitores. Ganhou com isso o genro do sargento-mor uma comenda para seu sogro e outra para ele, e uma abadia pingue para o padre Atanásio, tio de sua mulher. Em consequência do que todos os padres voltaram a sotaina e proclamaram a legitimidade da Senhora D. Maria II, com grande desgosto do juiz eleito, que rompeu relações com a família dos renegados, ou arrenegados, como ele dizia.
Desta desavença resultou que os jornais do Porto agrediram Silvestre da Silva, acoimando-o de desviar os dinheiros do Município em benefício das suas propriedades.
Agora é tempo de dizer que Silvestre saíra muito empenhado do Porto e os credores o tinham em conta de insolvente por saberem que a sua pequena casa estava hipotecada a dívidas mais antigas. Ora, como quer que os credores o vissem tratado nos periódicos como proprietário e indagassem, até saber que ele casara rico, e onde, remeteram deprecadas para ele ser citado com sua mulher. Então se saiu Silvestre com uma escritura nupcial, em que os bens havidos e por haver de sua mulher ficavam isentos de pagar as dívidas do marido, contraídas até à data do casamento. Os credores mais antigos saíram com as suas acções de execução sobre as hipotecas e retiraram pasmados de verem cópias de escrituras anteriores. O certo é que Silvestre da Silva, se necessário fosse, mostraria que seus avós tinham hipotecado a casa, alguns séculos antes de ela existir.
É mui pouco de louvar-se este proceder; mas uma razão ilustrada concede que um homem maltratado pelas mulheres se vingasse nos credores. Um espírito sublime, quando trata de despicar-se, vinga-se em globo.
Verdadeiramente inultos são aqueles que nem credores têm sequer!
O sargento-mor, conquanto fosse carácter dos bons tempos, transigiu com as velhacadas do genro e admirou-lhe a esperteza. A comenda iluminara-lhe o espírito, a cuja luz ele viu as coisas, os homens e a época.
Ao terceiro ano de casado, Silvestre formava com o peito e abdómem um arco. A gordura embargava-lhe a acção e abafava-lhe o espírito nas enxúndias.
Vi-o na Foz, e conheci então a Sra. Tomásia, e seu pai, e um menino de dois anos, que era a doidice do avô.
Falei em assuntos literários com o meu antigo colega na imprensa. O homem ria-se de mim e dizia:
- Ainda estás nisso, pobrezote?! Esquece-te, brutaziza-te, faz-te estômago, se quiseres viver à imagem de Deus, que faz os homens neste tempo!
O único livro que lhe vi à cabeceira da cama era a Fisiologia do Paladar, de Brillat-Savarin, e a Gastronomia, poema de Bouchet.
Pediu-me que fosse passar com ele uma temporada a Soutelo, se queria voltar ao mundo com alma nova. Anuí, e lá me detive dois meses, voltando com o estômago arruinado pelo sarro do muito toucinho sobre o qual o meu amigo me prometia reconstruir o aparelho espiritual.
Observei, na Foz, que Silvestre procurava a distracção do jogo: dizia que a fortuna dos seus credores dependia dos ganhos que ele obtivesse. Os credores do meu amigo perdiam com ele, como pessoas infelicíssimas que eram.
Explicava Silvestre a excentricidade deste mundo, julgando-o bom e de nenhum modo interessado em ludibriar-me, o mundo folgou de explorar um tolo que abria o coração e a algibeira a todas as perfídias e zombarias.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.