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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Elas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou... Que leve o Diabo tudo... – E, passados alguns segundos de recolhida angústia: – Veja você, sor pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz que ma não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da minha paixão, fiquei areado do juízo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar à minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me levar o Diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, metia-me uma baioneta no corpo...

– Homem – atalhou o pai com juízo – não fosses tu lá a Prazins embirrar com o brasileiro...

– Eu tenho a minha paixão – objectou o filho com transporte – tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e ele... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido...

Saiu arrebatadamente e foi para o Monte Córdova conversar com o Patarro, um velho celerado que se batera em Braga com a cavalaria do Casal e pudera salvar-se com o sacrifício de três dedos e do nariz acutilados.

Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga, torreada, com o brasão dos Brandões, que o brasileiro comprara a um fidalgo de Afife. O negócio deitara a tarde. Simeão saíra ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dois lavradores de outra freguesia que montavam éguas andadeiras de muitos brios. O Simeão cavalgava a sua velha ruça, de uma pachorra mansa, invulnerável à espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para trás. Ela não podia manifestar de um modo mais sensível a sua repugnância pelas pressas. O dono gabavase de só ter caído juntamente com ela poucas vezes. Saíram da feira conversando a respeito de Marta. Constava aos outros que ela se quisera matar à conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ela quisera atirarse ao rio; mas que estava quase boa em Caldelas; que o vigário e mais a irmã lhe tinham dado um jeito ao miolo; e logo que ela estivesse fina, casava com o tio.

– E ele qué-la? – perguntou o Bento de Penso.

– Pois então!... Tomara-a ele já.

– Enfim – tornou o Bento – você há-de perdoar que eu lhe diga o que tenho cá no sentido. O povo diz que o

Dias entrava lá de noite. Eu não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brasileiro pelos modos é de bô comer...

– Tem bô estômago, é o que é – confirmou o Belchior da Rechousa.

O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviais nas aldeias ainda imaculadas do resguardo das conveniências; mas defendia a honra da filha, atribuindo ao Zeferino as calúnias que espalhava para se vingar. – Enfim – disse o Belchior – você tinha-lha dado por quinze centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna atrás.

– Isso cá da minha parte foi chalaça... – defendia-se o Simeão, quando três homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, à frente das três éguas que caminhavam a passo. Um dos três jogou uma paulada à cabeça do Simeão e derrubou-o.

(continua...)

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