Por Eça de Queirós (1912)
Ora um dia, saindo de uma cidade, encontrou no caminho um pobre histrião, com uma perna de pau, e acompanhado pela mulher doente, que amamentava o filhinho. Eram tão miseráveis e tristes, ele com uma espada debaixo do braço, ela suspendendo aos ombros um saco de bolas e peloticas, que Cristóvão começou a caminhar ao seu lado. Assim soube que outrora percorriam os caminhos e as feiras, ganhando amplamente a sua vida, e (desde que ele, numa queda, perdera a perna) mostrando cães sábios e um macaco, que faziam sortes maravilhosas. Havia dias, porém, estando numa taberna, numa estrada, a repousar, tinham chegado os escudeiros e homens de armas de um Senhor, que, embriagados, e numa rixa, lhe tinham, a grandes cutiladas, morto o macaco e os pobres cães. Com eles se fora a sua fortuna. Trabalhar não podia, assim manco. E agora só lhes restava mendigarem, até que o frio, a fome, os prostrassem uma noite, a eles e à criança, mortos à beira de um caminho. E o saltimbanco acrescentava: “Bem feliz és tu, que te fez Deus tão grande, e te podes mostrar nas feiras ganhando mais que um letrado a escrever!” – Decerto, o saltimbanco o tomava a ele, Cristóvão por um desses gigantes que se mostram nas feiras. E apenas assim pensara, Cristóvão, com simplicidade, propôs ao saltimbanco que a troco do pão, e da metade do ganho, o levasse a uma feira, para o mostrar numa barraca. O pobre saltimbanco quase chorou de alegria – e logo dali partiram para uma grande feira, que todos os anos, pelo S. Miguel, se fazia junto de uma grande cidade murada.
Chegaram lá de noite, e tendo obtido licença dos guardas para entrar, o saltimbanco foi logo a um desses judeus que trocam dinheiro, pediu emprestado o que era necessário para construir uma barraca, erguer os estrados, lonas vermelhas, e possuir um tambor que anunciasse o gigante. O judeu, tendo examinado Cristóvão e certo que era um monstro de boa mostra e de boa renda, contou, uma a uma, dez peças de prata na palma do saltimbanco: - e tendo assinado o papel diante do corregedor da feira, o saltimbanco partiu com Cristóvão, a construir a barraca. Toda a noite trabalharam, pregando, martelando, enquanto a mulher do palhaço cosia à pressa uma túnica escarlate para Cristóvão.
Ao outro dia tudo estava pronto, e posta sobre dois postes a grande peça de paninho branco, em que se anunciava o maior gigante e o maior atleta de Navarra e dos Mundos. Cristóvão, sentado numa vasta caixa que um tapete recobria, esperava, enquanto fora o saltimbanco, tocando o tambor, anunciava a maravilha, e a mulher, com cequins de metal nas tranças caídas, como uma moura, esperava diante de um prato de cobre, onde deviam cair as entradas.
A feira era enorme, num vasto prado que defrontava com os muros da cidade. As barracas de lona, de madeira, de tapetes, de ramagens, alinhavam-se em grandes ruas. No topo dos mastros flutuavam bandeirolas. E homens enfardelados como orientais, mulheres com plumas nas cabeças, outras com trajes de nações estranhas, conservavam-se por trás dos balcões, onde, segundo a rua, e os mesteres, se desdobravam panos, reluziam jóias em caixas gradeadas, se perfilavam os frascos de essências, se amontoavam as peles, se confundiam as armas tauxiadas. Noutras ruas, sob tendas de lona, havia cozinhas. grandes barricas de cerveja ou e vinho. E os saltimbancos ocupavam um lugar perto do rio, que longos olmeiros assombreavam. Em volta, por toda a vasta planície, era uma confusão de carros descarregados, de pilhas de madeira, de cavalgaduras presas pelas patas, de grandes gigos onde se debatiam aves.
Apenas as portas da cidade se abriram, a multidão começou a encher as ruas da feira, onde a erva desaparecera sob os pés. E bem depressa começou o vozear dos pregões, os brados dos que chamavam fregueses, os atabales tocando à porta das tabernas, as sinetas repicando.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.