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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se; não há beleza de corpo que resista.Perde-se o melhor. Quando se é como a tua amiga, a D. Felicidade, enfim!... Mas quando se é direitinha e arranjadinha!... Nada, minha rica! Embaraços não faltam!

Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio tocar o final da Traviata; ia escurecendo; já as verduras dos quintais tinham uma igual cor parda; e as casas para além esbatiam-se na sombra.

A Traviata lembrou a Luísa a Dama das camélias; falaram do romance; recordaram episódios...

- Que paixão que eu tive por Armando em rapariga! - disse Leopoldina.

- E eu foi por D'Artagnan - exclamou ingenuamente Luísa.

Riram muito.

- Começamos cedo - observou Leopoldina. - Dá-me uma gotinha mais.

Bebeu, pousou o cálice - e encolhendo os ombros:

- Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos treze anos já a gente vai na sua quarta paixão.Todas são mulheres, todas sentem o mesmo! - E batendo o compasso com o pé, cantou, no tom do fado:

- O amor é uma doença

Que costuma andar no ar;

Só d'ir à janela às vezes

S'apanha a febre d'amar!

- Estou hoje com uma telha! - E espreguiçando-se muito languidamente: - No fim de contas é oque há de melhor neste mundo; o resto é uma sensaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade?

Luísa murmurou:

- Se é! - E acrescentou logo: - Creio eu!

Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a:

- Crê ela! Pobre inocentinha! Vejam o anjinho!

Foi-se encostar à janela; ficou a olhar pelos vidros o descer do crepúsculo; de repente pôs-se a dizer devagar:

- Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Cristo a privar-se, a passar uma vida decoruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, um ar, uma soalheira e boas noites, vai-se para o alto de São João! Tó rola!

A sala agora estava um pouco escura.

- Pois não te parece? - perguntou ela.

Aquela conversa embaraçava Luísa; sentia-se corar, mas o crepúsculo, as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento de uma tentação. Declarou todavia imoral semelhante idéia.

- Imoral, por quê?

Luísa falou vagamente nos deveres, na religião. Mas os deveres irritavam Lepoldina. Se havia uma coisa que a fizesse sair de si - dizia - era ouvir falar em deveres!...

- Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido?

Calou-se, e passeando pela sala excitada:

- E em quanto à religião, histórias! A mim me dizia o Pe, Estêvão, o de luneta, que tem osdentes bonitos, que me dava todas as absolvições, se eu fosse com ele a Carriche!

- Ah, os padres... - murmurou Luísa.

- Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha rica, está longe, não seocupa do que fazem as mulheres.

Luísa achava horrível aquele modo de pensar. A felicidade, a verdadeira, segundo ela, era ser honesta...

- E a bisca em família! - resmungou Leopoldina, com ódio.

Luísa disse, animada:

- Pois olha que com as tuas paixões, umas atrás das outras...

Leopoldina estacou:

- O quê?

- Não te podem fazer feliz!

- Está claro que não! - exclamou a outra. - Mas... - procurou a palavra; não a quis empregardecerto; disse apenas com um tom seco: - Divertem-me!

Calaram-se. Luísa pediu o café.

Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; daí a pouco foram para a sala. - Sabes quem me falou ontem de ti? - disse Leopoldina, indo estender-se no divã, - Quem?

- O Castro.

- Que Castro?

- O de óculos, o banqueiro.

- Ah!

- Muito apaixonado por ti sempre.

Luísa riu.

- Doido, palavra! - afirmou Leopoldina.

A sala estava às escuras, com as janelas abertas; a rua esbatia-se num crepúsculo pardo, um ar lânguido e doce amaciava a noite.

Leopoldina esteve um momento calada; mas o champanhe, a meia obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciazinhas. Estirou-se mais no divã, numa atitude toda abandonada; pôs-se a falar dele. Era ainda o Fernando, o poeta. Adorava-o.

- Se tu soubesses! - murmurava com um ar de êxtase. - É um amor de rapaz!

A sua voz velada tinha inflexões de uma ternura cálida. Luísa sentia-lhe o hálito e o calor do corpo, quase deitada também, enervada; a sua respiração alta tinha por vezes um tom suspirado; e a certos detalhes mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como de cócegas... Mas passos fortes de botas de tachas subiram a rua, e no candeeiro defronte o gás saltou com um jato vivo. Uma branda claridade pálida penetrou na sala.

Leopoldina ergueu-se logo. - Tinha de ir já, já, ao acender do gás. Estava à espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo às escuras, a pôr o chapéu, buscar a sombrinha. - Tinha-lhe prometido, coitado, não podia faltar. Mas realmente embirrava de ir só. Era tão longe! Se a Juliana pudesse vir acompanhá-la...

- Vai, sim, filha! - disse Luísa.

Ergueu-se preguiçosamente com um grande ai!, foi abrir a porta, e deu de cara com Juliana, na sombra do corredor.

- Credo, mulher, que susto!

- Vinha saber se queriam luz...

- Não. Vá por um xale para acompanhar a senhora D. Leopoldina! Depressa!

Juliana foi correndo.

- E quando apareces tu, Leopoldina? - perguntou Luísa.

(continua...)

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