Por Camilo Castelo Branco (1862)
- Vê meu pai? Cá o tem ao peito. Vossemecê dizia que o Sr. Silvestre não punha isto!... Eu bem sabia que ele era cristão!
Estava a mesa posta e coberta de pratos de trutas e escalos, entre açafates de fruta.
Merendámos e ficámos em palestra na varanda de cantaria até ao toque das ave-marias.
Depois da reza saíram os convidados: os padres também saíram para rezar o breviário, o sargento-mor foi tomar um banho no rio e eu fiquei sozinho com tomásia.
Coaxavam as rãs e zumbiam os besouros. Dos soutos e carvalheiras vinha o pio gemente das corujas e dos mochos. Os morcegos voejavam por entre os pilares da varanda. Nas cortes vizinhas da casa balavam os cordeiros, e refocilavam-se as cabras, produzindo o som cavo do embate das marradas - divertimento que a humanidade usa com menos estrondo e mais às claras.
Tomei a mão de tomásia e disse-lhe:
- És muito minha amiga?
- Sou - respondeu ela, dando a outra mão, que eu apertei entre as minhas.
- És feliz em casar comigo?
- Agora é que tenho quanto desejo.
- E se eu não voltasse, se eu não casasse contigo, eras desgraçada?
- Deus me livre! Morria como a menina de Chaves.
- E se te dissessem que eu gostava doutra mulher, querias-me?
- Se o Sr. Silvestre gostasse doutra não me queria a mim.
- Mas se eu viesse a gostar depois de casado?
Tomásia retirou as mãos. Não sei se perdeu a cor, que era suficiente a claridade das estrelas para este estudo.
- Porque tiras as tuas mãos das minhas?! - perguntei.
Tomásia deu-as outra vez, sem responder.
Insisti na pergunta.
- Isso não pode ser - disse ela.
- O que não pode ser?
- Casar comigo e gostar doutra depois... Meu pai quis sempre muito a minha mãe, e todos os casados que conheço são como era meu pai.
- E eu serei como eles, minha amiga. Não penses mais nestas perguntas.
Abracei-a, dei-lhe um beijo na face e deixei-a ir dar as ordens para a ceia.
O beijo recebeu-o sem estremecimentos de pudor, como as donzelinhas dos romances.
X
Dois dias depois, às seis horas da manhã, ouvi um tiroteio que vinha soando das montanhas e vales convizinhos da aldeia.
Eram os amigos do sargento-mor, chamados e não chamados a festejar o casamento da morgada. Assim a denunciavam por ser filha única.
Encheram-se os extensos casarões de gente. Chamavam lá cobrados e casarões ao que nas terras onde já chegou a ilustração das palavras se chama “salas”.
Vinham à mistura com os lavradores muitas moças de alegres rostos, com abadas de flores desfolhadas. O juiz eleito vestia casaca e o boticário parecia trazer na gola da sua todo o laboratório farmacêutico.
Tomásia trajava de cetim azul. Fora mandado vir de Chaves o vestido. A irmã do juiz eleito, que estivera a banhos na Foz, penteou-a à moda do Porto; mas a minha noiva, vendo-se ao espelho, desmanchou o penteado e formou da grande trança loura um diadema, sem mais enfeites que uma rosa de Alexandria. Por cima dos ombros, que o vestido deixava nus, lançou Tomásia um xaile de Tonquim escarlate, que eu havia mandado a minha mãe e ela nunca vestira.
Saímos para a igreja entre alas de activo bombardeamento. Eram centenares de pessoas de ambos os sexos.
As velhas erguiam as mãos aos céus, exclamando:
- Como tu vais linda! Bendito seja Deus! Pareces Nossa Senhora!
Confessamo-nos, comungamos e recebemos as bênçãos.
Desde que saímos da Igreja até à entrada de casa caminhámos sempre debaixo de nuvens de flores. O estrondo dos bacamartes era atroador e os dois sinos da freguesia repicaram desde que saímos do templo até ao anoitecer desse dia.
Meia hora depois que chegámos entrei no quarto de minha mulher e encontrei-a de joelhos diante duma imagem de S. João dos Bem-Casados.
Ergueu-se ela, benzendo-se, e esperou que eu a beijasse pela segunda vez. Penso que o público me releva a confissão de que, ao dar-lhe este segundo beijo, encontrei os lábios. Era o instinto das sensações agradáveis, mas honestas, que ensinou a minha mulher o segredo do máximo prazer de um beijo.
Estava o almoço na mesa.
O EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO
Os autógrafos do meu amigo Silvestre da Silva carecem de nexo e ordem desde a data do seu casamento. Salta logo aos olhos que o ilustre autobiógrafo, chegado ao macro da bem-aventurança, quedou-se a repousar da peregrinação - Deus sabe quão penosa! - que trouxera pelas precipitosas veredas do seu passado.
Vejo aqui muito fragmento de obras bosquejadas, sobre assuntos de higiene caseira. Os mais aproveitáveis tendem a mostrar que a deusa da fortuna é a predilecta amiga dos que submetem a vida ao regime suave da matéria e só exercitam seu espírito para corrigir-lhe as demasias. Estes trechos soltos acho-os enfaixados sob o título: A Felicidade pelo Estômago.
Há outros manuscritos que encarecem o egoísmo, mas o racional egoísmo de Bentham. É esta uma das máximas: “O homem só vive bem com os outros quando vive mais para si”. E neste ponto de sentenças podia eu mostrar, se tivesse paciência para copiá-las, que Silvestre da Silva, se cultivasse o género, poderia ser um La Rochefoucauld fora de Soutelo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.