Por Eça de Queirós (1878)
- Tu verás - dizia ela. - Não te tentas? Fazes mal!
Teve então um movimento decidido de bravura, disse:
- Traga-me um alho, Sra. Juliana! Traga-me um bom alho!
E apenas ela saiu:
- Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!... Ah! Obrigada, Sra. Juliana! Não hánada como o alho!...
Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau de um fio mole de azeite, com gravidade. - Divino! - exclamou. Tornou a encher o copo; achava aquilo uma pândega.
- Mas que tens tu?
Luísa com efeito parecia preocupada. Tinha suspirado baixo. Duas vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta:
- Parece que tocaram a campainha, vá ver.
Não era ninguém.
- Quem havia de ser? Não esperas teu marido, decerto.
- Ah! não!
E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito atenta, lascazinhas de bacalhau:
- E teu primo veio ver-te?
Luísa fez-se vermelha.
- Sim, tem vindo. Tem vindo várias vezes.
- Ah!
E depois de um silêncio:
- Ainda está bonito?
- Não está feio...
- Ah!
Luísa apressou-se a perguntar se tinha encomendado o vestido de xadrezinho? Não. E começaram a falar de toaletes, fazendas, lojas e preços... Depois, de conhecidas, de outras senhoras, de boatos - perdendo-se numa conversa de mulheres sós, miudinha e divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens.
Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma cor quente nas faces. Pediu a Juliana que lhe fosse buscar o leque; - e recostada, abanando-se, declarou que se sentia como um príncipe. E ia bebericando golinhos de vinho. Que boa idéia, jantarem juntas!...
Apenas Juliana dispôs os pratos de fruta, Luísa disse-lhe logo que chamaria para o café, que podia ir. Foi ela mesmo fechar a porta da sala, correr o reposteiro de cretone:
- Estamos à vontade, agora! Faço-me velha só de olhar para esta criatura! Estou morta por a verpelas costas!
- Mas por que a não pões na rua?
Jorge que não queria, senão...
Leopoldina protestou. Boa! Os maridos não deviam ter vontade!... Era o que faltava!...
- E o teu, então? - disse Luísa, rindo.
- Obrigada! - exclamou Leopoldina. - Um homem que faz quarto à parte!...
De resto detestava os homens que se ocupam de criadas, de róis, de azeites e vinagres...
- Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne! - Sorriu, com ódio. - Também é o que vale, senão!... Eu só de ir à cozinha me dão enjôos...
Quis deitar vinho, mas a garrafa estava vazia.
Luísa acudiu:
- Queres, tu champanhe? - Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um proprietário deminas.
Foi ela mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul; - e com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as; olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se de saber abrir muito bem o champanhe; falava vagamente de ceias passadas...
- Em terça-feira gorda, há dois anos!...
E toda recostada na cadeira, com um sorriso cálido, as asas do nariz dilatadas, a pupila úmida, olhava com sensualidade os globulozinhos vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio.
- Se fosse rica, bebia sempre champanhe - disse.
Luísa não, ambicionava um cupê; e queria viajar, ir a Paris, a Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes de assinatura, uma casa em Sintra, ceias, bailes, toaletes, jogo... Porque gostava do monte. - dizia fazia-lhe bater o coração.
E estava convencida que havia de adorar a roleta.
- Ah! - exclamou. - Os homens são bem mais felizes que nós! Eu nasci para homem! O que eu faria!
Levantou-se, foi-se deixar cair muito languidamente na voltaire, ao pé da janela. A tarde descia serenamente; por trás das casas, para lá dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amareladas, orladas de cores sangüíneas ou de tons alaranjados.
E voltando-lhe a mesma idéia de ação, de independência:
- Um homem pode fazer tudo! Nada lhe fica mal! Pode viajar, correr aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito...
O pior é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia tão mal!...
- É um convento, isto! - murmurou Leopoldina. - Não tens má prisão, minha filha!
Luísa não respondeu; tinha encostado a cabeça à mão: e com o olhar vago, como continuando alguma idéia.
- São tolices, no fim, andar, viajar! A única coisa neste mundo é a gente estar na sua casa, como seu homem, um filho ou dois...
Leopoldina deu um salto na voltaire. Filhos! Credo, que nem falasse em semelhante coisa! Todos os dias dava graças a Deus em os não ter!
- Que horror! - exclamou com convicção. - O incômodo todo o tempo que se está!... Asdespesas! Os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, palram, vão dizer... Uma mulher com filhos está inútil para tudo, está atada de pés e mãos! Não há prazer na vida. E estar ali a aturá-los... Credo! Eu? Que Deus não me castigue, mas se tivesse essa desgraça parece-me que ia ter com a velha da Travessa da Palha!
- Que velha? - perguntou Luísa.
Leopoldina explicou. Luísa achava uma infâmia. A outra encolheu os ombros, acrescentou:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.