Por Camilo Castelo Branco (1862)
Dali três léguas sentei-me à sombra duns azinheiros e abri o alforge: era uma galinha assada, uma cabaça de vinho e um pão.
A leitora de coração fino e melindroso pergunta-me se eu gostei daquilo, se me não seria mais saboroso encontrar um ramo de flores.
Não, minha senhora, eu gosto muito mais de encontrar a galinha, o pão e a cabaça.
Os prazeres das flores cedo-os bizarramente aos amadores de Vossa Excelência e a Vossa Excelência não levo a mal que se ria da filha do sargento-mor de Soutelo, que punha flores aos santos e cuidava seriamente do estômago das pessoas que lhe eram caras.
VIII
Cheguei a minha casa e estranhei-a como se não fosse a minha.
Vi uns velhos criados, que se moviam taciturnos e tristes. Peava-me no peito aquela solidão, mais amargurada pelas lembranças da infância. O espírito refugiava-se em Soutelo, e eu pasmava de não sentir renascer o coração ao calor daqueles desejos, que semelhavam saudades.
Abreviei os meus arranjos, fazendo ler o primeiro proclame do meu casamento no dia imediato, que era domingo, dispondo novos arrendamentos dos bens, demitindo-me da regedoria e comprando na vila próxima algumas prendas de noivado.
Nestes preparativos, andava comigo um contentamento plácido e sereno como eu nunca houvera experimentado. Adormecia e acordava alegre, bem que esta alegria do despertar não fosse um alvoroço, uma embriaguez de gozo como eu sentira em outra idade, nos efêmeros prazeres, ou meras esperanças de os alcançar. Agora, a minha satisfação era toda ver-me sequestrado do mundo, estimado de cinco velhos felizes, ligado a uma mulher inocente, moldada pelas doces imagens que eu julgava extintas nos tempos bíblicos. Figurava-se-me a minha vida futura no decurso de trinta anos, que podia ainda viver. Antevia a uniformidade, no trabalho sem fadiga e no respeito e estima dos meus conterrâneos. Lia da minha pequena livraria os poetas bucólicos, e especialmente relia e decorava uma ode de Meléndez que principiava assim: Ya vuelvo a ti pacífico retiro:
Altas colinas, vale silencioso
Término a mis deseos,
Faustos me recebid; dadme el reposo Por que en vano suspiro
Entre el tumulto y tristes devaneos De la corte enganosa:
Con vuestra sombra amiga
Mi inocencia cubrid, y en paz dichosa Dadme esperar el golpe doloroso De la parca enemiga...
Algumas vezes interrogava a minha consciência, perguntando-lhe se eu amava Tomásia. Não me respondia, por se julgar desautorizada para a resposta. Ao coração é que tocava o discutirmos semelhantes pontos de pouquíssima importância para o complemento da minha felicidade. Eu tinha lido a Bíblia e não vira lá os patriarcas oferecendo ou pedindo amor às mulheres com quem se esposavam. Booz não diz a Rute que a ama. Jacob, conquanto dessimpatize com os olhos doentios de Lia, não se declara amoroso de Raquel. Abraão casou com Sara sem se despender em maravalhas do coração. Na idade de ouro, a mulher era a fêmea do homem: casavam para procriarem, segundo suas espécies, e procriando envelheciam ditosos.
O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: “A Maria do Ribeiro ama o António da Capela.” Lá não se diz ama; é querem-se. “Querem-se” é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.
O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem subtilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimónio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
Eu cismava estas e outras coisas quando me estava preparando para entregar a minha vida às quietas delícias dum casamento que faria rir de piedade os meus amigos.
IX
Fui.
No carvalhal que forma o ádito da povoação de Soutelo esperavam-me os quatro clérigos, o sargentomor, o abade, o boticário e o juiz eleito. Abraçaram-me todos sem ser apresentado aos três personagens que ampliavam o círculo das minhas relações. Aquela boa gente das aldeias vem direita a um homem, dá-lhe um abraço de amolgar as costelas e levanta-o ao ar na veemência de sua credulidade. Coisa que nunca por lá me disseram foi: “Aqui lhe apresento o Sr. Fulano”.
Os Fulanos da aldeia julgam-se sempre assaz visíveis para dispensarem que outrem diga deles: “Aqui lho mostro”.
Abalámos dali para casa.
Tomásia veio receber-me ao patim da escada e logo me perguntou pelo Agnus Dei. Mostrei-lho, tirandoo do peito. A contente moça beijou a relíquia e disse:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.