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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião, pô-la casa do corpete. Desejava ter uma sala assim - pensava, olhando em redor. Queria-a de repes azul, com dois grandes espelhos, um lustre de gás, e o seu retrato a óleo de corpo inteiro, decotada, ao pé de um rico vaso de flores...

Sentou-se ao piano, bateu rijamente o teclado, tocou motivos do Barba-Azul.

E vendo Luísa entrar:

- Mandaste arranjar o bacalhau?

- Mandei.

- Assado?

- Sim.

- E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da Grã-duquesa:

- Ouvi dizer que meu avô de vinho, Era um tal amador...

Mas Luísa achava aquela música "espalhafatona"; queria alguma coisa triste, doce... O fado! Que tocasse o fado!...

Leopoldina exclamou logo:

- Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os versos são divinos!

Preludiou, cantando com um balouçar lânguido da cabeça, o olhar erguido e turvo:

- O rapaz que eu ontem vi Era moreno e bem feito...

- Tu não sabes isto, Luísa? Oh, filha! É o último! É de chorar! Recomeçou, com o tom muitoquebrado. Era a história rimada de um amor infeliz. Falava-se nas "raivas do ciúme, nas rochas de Cascais, nas noites de luar, nos suspiros da saudade", todo o palavreado mórbido do sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes à voz, revirava um olhar expirante; uma quadra sobretudo enternecia-a; repetiu-a com paixão:

- Vejo-o nas nuvens do céu

Nas ondas do mar sem fim, E por mais longe que esteia Sinto-o sempre ao pé de mim.

- Lindo! - suspirava Luísa.

E Leopoldina terminava com ais! em que a sua voz se arrastava numa extensão desafinada.

Luísa, de pé junto do piano, sentia o cheiro do feno que ela usava; o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso seguia sobre o teclado os dedos ágeis e magros de Leopoldina, onde reluziam as pedras dos anéis que lhe tinha dado o Gama.

Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o jantar na mesa!

Leopoldina declarou que vinha a cair de fome! E a sala de jantar com as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul de horizonte onde se algodoavam nuvenzinhas muito brancas - alegrou-a; a sala de jantar dela tirava-lhe até o apetite; era uma tristeza; deitava para o saguão!

Pôs-se a depenicar bagos de uvas, a trincar bocadinhos de conserva - e reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo:

- Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pândego!

- E há que tempos que não jantavam juntas! Desde quando?

- Desde o meu primeiro ano de casada - lembrou Luísa.

Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito nesse tempo; Jorge ir às lojas ambas, aos confeiteiros, à Graça... A lembrança daquela camaradagem levou-a às recordações mais distantes do colégio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o sobrinho. - Lembraste dele?

- O Espinafre?

- "Espinafre" ou não era no colégio o homem, o ideal, o herói; todas lhe escreviam bilhetes,desenhavam-lhe corações de onde saia uma fogueira; metiam-lhe no boné muito sebento ramos de flores de papel... E quando a Micaela foi apanhada, no cacifo dos baús, a devorá-lo de beijos!...

Luísa disse:

- Que horror!

- Não que a Micaela era doida!

Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava cheia de filhos...

- Isto é um vale de lágrimas! - resumiu Leopoldina, recostando-se.

Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do colégio! Que bom tempo!

- Lembraste quando estivemos de mal?

Luísa não se lembrava...

- Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento - disse Leopoldina.

Puseram-se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha , a Freitas. Que olhos! E que bem feita! Tinha-lhe feito a corte um mês.

- Tolices! - disse Luísa corando um pouco.

- Tolices! Por quê?

Ai! Era sempre com saudades que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida!

- Nunca - exclamou -, nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pelaJoaninha!... Pois podes crer...

Um olhar de Luísa deteve-a. - A Juliana! Diabo! Tinha-se esquecido! Constrangia-se muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito chato, o tique-taque dos metálico dos tacões.

- E que foi feito da Joaninha? - perguntou Luísa.

- Morrera tísica - e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem triste, não era? Masnão lhe tinha medo, ela! Batia no seio, bem formado:

- Isto é rijo, isto é são!

Juliana saiu, e Luísa observou logo:

- Vê no que falas, filha! Tem cuidado!

Leopoldina curvou-se:

- Ah! A respeitabilidade da casa! Tens razão! - murmurou.

E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!

- Bravo! Está soberbo!

Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco toscado, abrindo em lascas.

(continua...)

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