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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Lorde Grenley, com os olhos rasos de água, mordia convulsivamente o seu cachimbo.- Guarde bem os meus cabelos, sim? — dizia-me ela. — Diziam que eram bonitos. Se eu por acaso não morresse, havíamos de ir todos a Sevilha. Que lindo que é Sevilha. A tarde, nas Delícias, todo o mundo traz um ramo de flores.De repente abriu demasiadamente os olhos como diante de uma coisa pavorosa: levou as mãos à face, gritou:- Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se caio no Inferno, meu Deus!

— O Inferno é uma visão, minha pobre senhora! — dizia o ca pelão. — Os castigos deDeus não são feitos com o fogo.

— Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim, sim?Alguns marinheiros tinham-se aproximado. O capelão ajoe lhou: todos tiraram os barretes, rezavam baixo. Lorde Grenley fi cara de pé, descoberto, imóvel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no céu. O vento começava a assobiar.- Adeus — disse-me ela. — Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por fim...

Um pouco estroina, talvez... Lorde Grenley, obrigada. Que tristeza, ter morrido alguém noseu iate!... Que é aquilo, além, ao longe? É a terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! Ah! meu amor, ouve-me, onde estás tu?

Duas grandes, tristes lágrimas, correram-lhe na face teve ainda força para as enxugar.Depois, sorrindo:

— Olhem, não pensem em mim com tristeza. Somente, às ve zes, quando estiverem juntos, e ele estiver também lembrem-se desta pobre rapariga que para aqui morreu no mar...E digam: pobre Cármen! Aí está uma que sabia amar deveras!

E dizendo isto, estremeceu, falou desvairadamente em Malta, em Sevilha, em Rytmel,e, dando um gemido profundo, morreu. O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lorde Grenley turvou-se, beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava.Então um velho marinheiro aproximou-se, e sobre aquele cor po, que fora Cármen, estendeu a bandeira inglesa.

XIV

Imagine, senhor redactor, em que lamentável estado de espí rito nós ficámos. Lorde Grenley encerrou-se no seu camarote, eu e o capelão ficámos velando junto do cadáver. Atarde descia. Uma névoa extensa cobria o mar. O rugido do vento era lúgubre. Todos estavam profundamente apie4ados. A velhos marinheiros, que tinham naufragado no mar da Índia e dobrado o Cabo, eu vi salta rem as lágrimas...- Pobre criança! — diziam eles.

Para aquelas rudes naturezas simples, essa mulher nova, vestida de branco,palidamente linda, era a miss, a virgem, a criança! um arranjou-lhe uma coroa de algassecas, e foi piedosamente pôr-lha sobre o peito. Era o ramo das flores do mar.

Eu pensei algum tempo em conduzir o corpo de Cármen até Espanha, mas o pilotoobservoumo que teríamos ainda 4 ou 5 dias de viagem, e o corpo não podia esperar na sua pureza durante es ta longa demora. Por isso resolvemos deitá-la ao mar, quando viesse anoite. Assim, ficámos, o capelão e eu, durante a tarde, jun to do cadáver, lembrando as suas belezas e as suas desgraças.

A noite caiu; cobriu as águas. O capelão desceu. Fiquei só. Havia sobre o cadáver, pendente de uma corda, uma lâmpada. Descobri-lhe o rosto, afaguei-lhe os cabelos. A sua beleza tinhase fixado numa imobilidade angélica como se a morte lhe tivesse restituído a virgindade. A curva adorável do seu seio aparecia em relevo na bandeira que a cobria; nuncatanta força tinha produzi do tanta graça! Olhei-a durante muito tempo, enlevado na sua contemplação. As lágrimas caíam-lhe dos olhos.

— Pobre criatura! — dizia eu na solidão dos meus pensamen tos. — Pobre criatura! Vaispara a mais profunda das covas, para a sepultura errante das águas. Uma febre de amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te agitará na morte! Condiz o túmulo com aexistência! Como o mar, tu foste bela, orgulhosa e ruidosa. Como o mar, tu tiveste as tuas tormentas, as tuas calmarias ocultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua elevação religiosa, a tua espuma imunda. Como sobre o mar, sobre o teu cérebro correram as docesideias geniais e puras como velas de pes cadores; as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; as brutais exigências do temperamento, estú pidas evitoriosas como monitores armados. Despedaçaste-te de encontro à fria reserva de um amorque se extingue, como ele se esmigalha contra a escura insensibilidade das rochas. Como ele tem o vento que é o seu tirano, tu tiveste a paixão. Vai, pobrezinha, repousar em paz, nofundo das algas verdenegras! Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, corou, quis, ven ceu? Quantas lágrimas causaste! Quantas loucas palpitações!Quantos desejos para ti voaram como bandós de pombas! Quantas vozes perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste sucumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duasbalas aos pés e atira com ela ao mar! E aqui jaz o ruído do ven to, e aqui jaz a espuma da onda!

(continua...)

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