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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o Alvaralhão, Gonçalo não cessou de ruminar a ousadia do Casco. Pela vez primeira, na história de Santa Irenéia, um lavrador daquelas aldeias, crescidas à sombra da Casa ilustre, por tantos séculos senhora em monte e vale, ultrajava um Ramires! E brutamente, alçando o cajado, diante dos muros da quinta histórica!... Contava seu pai que, em vida do bisavô Inácio, ainda desde Ramilde até Corinde, os homens dobravam o joelho nos caminhos quando passava o Senhor da Torre. E agora levantavam a foice!... E por quê? Porque ele não se desfalcara submissamente das suas rendas em proveito dum façanhudo! - Em tempos do avô Tructesindo, vilão de tal atentada assaria, como porco montês, numa ruidosa fogueira, diante das barbacãs da Honra. Ainda em dias do bisavô Inácio apodreceria numa masmorra. E o Casco não podia escapar sem castigo. A impunidade só lhe incharia a audácia: e assomado, rancoroso, noutro encontro, sem mais falas, desfechava a caçadeira. Oh! não lhe desejava um mal durável, coitado, com dois filhas pequeninos - um que mamava. Mas que o arrastassem à Administração, algemado, entre dois cabos de polícia - e que na triste saleta, donde se avistam as grades da cadeia, apanhasse uma repreensão tremenda do Gouveia, do Gouveia muito seco, muito esticado na sobrecasaca negra... Assim se devia resguardar, por meios tortuosos - pois que não era deputado, e que, com o seu talento, o seu nome, essa espantosa linhagem de avós que edificara o Reino, carecia o prestígio dum Sanches Lucena, o precioso prestígio que suspende no ar os varapaus atrevidos!

Apenas findou o café, mandou pelo Bento avisar os dois moços da horta, o Ricardo e o outro de queixo de cavalo, que o esperassem no pátio, armados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma "Sala de armas" - cacifro tenebroso, junto ao Arquivo, onde se amontoavam peças aboladas de armaduras, um lorigão de malha, um broquel mourisco, alabardas, espadões, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta poeirenta ferralhagem negra três espingardas limpas com que os moços da quinta, na romaria de S. Gonçalo, atiravam descargas em louvor do Santo.

Depois, ele, encafuou o revólver na algibeira, desenterrou do armário da corredor um velho bengalão de cabo de chumbo entrançado, agarrou um apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo Alvaralhão, com os dois criados de caçadeira ao ombro, importantes e tesos, partiu para Vila-Clara, procurar o Sr. Administrador do Concelho. A noite envolvia os campos em sossego e frescura. A lua nova, que alimpara o tempo, roçava a crista das outeiros de Valverde como a roda lustrosa dum carro de ouro. No silêncio os rijos sapatões pregueados dos dois jornaleiros ressoavam em cadência. E Gonçalo adiante, de charuto flamante, gozava aquela marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa Irenéia com homens da sua mercê e solarengos armados.

Ao começo da vila, porém, recolheu discretamente a escolta na taverna da Serena: e ele cortou para o Mercado da Erva, para a Tabacaria do Simões, onde o Gouveia, àquela hora, antes da partida da Assembléia, costumava pousar, comprar uma caixa de fósforos, considerar pensativamente na vidraça as cautelas da Loteria. Mas nessa noite o Sr. Administrador faltara ao Simões costumado. Largou então para a Assembléia; e logo embaixo, no bilhar, um sujeito calvo, que contemplava as carambolas solitárias do marcador, espapado na bancada, de colete desabotoado, mascando um palito - informou o Fidalgo da doença do amigo Gouveia:

- Coisa leve, inflamação de garganta... V. Exa. decerto o encontra em casa. Não arreda do quarto desde domingo.

Outro cavalheiro, porém, que remexia o seu café à esquina duma mesa atulhada de garrafas de licor, afiançou que o Sr. Administrador já espairecera nessa tarde. Ainda pelas cinco horas ele o encontrara na Amoreira, com o pescoço atabafado numa manta de lã.

Gonçalo, impaciente, abalou para a Calçadinha.. E atravessava o largo da Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia, à porta muita alumiada da loja de panos do Ramos, conversando com um homenzarrão de forte barba retinta e de guarda-pó alvadio.

E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para Gonçalo:

- Então, já sabe?

- O quê?- Pois não sabe, homem?... O Sanches Lucena! - O quê?

- Morreu!

O Fidalgo embasbacou para o Administrador, depois para o outro cavalheiro, que repuxava na mão enorme, com um esforço inchado, uma luva preta apertada e curta.

- Santo Deus!... Quando?

- Esta madrugada. De repente. Angina pectoris, não sei quê no coração... De repente, na cama.

E ambos se consideraram, em silêncio, no espanto renovado daquela morte que impressionava Vila-Clara. Por fim Gonçalo:

- E eu ainda há bocado, na Torre, a falar dele! E, coitado, como sempre, com pouca admiração...

- E eu! - exclamou o Gouveia. - Eu, que ainda ontem lhe escrevi!... E uma carta comprida, porcausa dum empenho do Manuel Duarte... Foi o cadáver que recebeu a carta.

(continua...)

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