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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

E, entre o rosnar dos cães, num bracejar desolado, balbuciou uma história que pôr seu turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do casarão pendesse para desabar. O Melchior não esperava S. Exª!... (Ele dizia sua incelência)... O sr. Silvério estava para Castelo de Vide desde Março, com a mãe, que apanhara uma cornada na virilha. E decerto houvera engano, cartas perdidas... Porque o sr. Silvério só contava com S. Exª em Setembro, para a vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas, muitas vidraças esperavam, ainda sem vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...

Jacinto cruzou os braços numa cólera tumultuosa que sufocava. Pôr fim, com um berro:

-Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, há quatro meses?...

O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que se embaciavam de lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua perturbação mirava pelas arcadas do pátio, palpava na algibeira das pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!

-E agora, Zé Fernandes?

Encolhi os ombros:

-Agora, meu filho, só vires comigo para Guiães... Mas são duas horas a cavalo. E não temos cavalos! O melhor é ver o casarão, comer a boa galinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir numa enxerga, e amanhã cedo, antes do calor, trotar para cima, para a tia Vicência.

Jacinto replicou, com uma decisão furiosa:

-Amanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para Lisboa!

E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de negras vigas, toda ornada, pôr entre os pilares de granito, com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarelo – e penetrei atrás de Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murmúrio de horror. Eram enormes, duma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros e enegrecidos pelo tempo e o abandono, e relegadas, desoladamente nuas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma enxada entre paus. Nos tetos remotos, de carvalho apainelado, luziam através dos rasgões manchas de céu. As janelas, sem vidraças, conservavam essas maciças portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além, uma tábua podre rangia e cedia.

-Inabitável! – rugiu Jacinto surdamente. – Um horror! Uma infâmia!...

Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de tábuas novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhíssimos tetos de rico carvalho sombrio. As paredes repeliam pela alvura crua da cal fresca. E o sol mal atravessava as vidraças – embaciadas e gordurentas da massa e das mãos dos vidraceiros.

Penetramos enfim na última, a mais vasta, rasgada pôr seis janelas, mobiliada com um armário e com uma enxerga parda e curta estirada a um canto; e junto dela paramos, e sobre ela depusemos tristemente o que nos restava de vinte e três malas – o meu paletó alvadio, a bengala de Jacinto, e o Jornal do Comércio que nos era comum. Através das janelas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e circulava como num eirado, com um cheiro fresco de horta regada. Mas o que avistávamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabeço e descendo pelo pendor suave, à Maneira duma hoste em marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais longe as serras de além rio, duma fina e macia cor de violeta; depois a brancura do céu, todo liso, sem uma nuvem, duma majestade divina. E lá debaixo, dos vales, subia, desgarrada e melancólica, uma voz de pegureiro cantando.

Jacinto caminhou lentamente para o poial duma janela, onde caiu esbarrondado pelo desastre, sem resistência ante aquele brusco desaparecimento de toda a Civilização! Eu palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de Inverno. E pensando nos luxuosos colchões de penas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei também a minha indignação:

-Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos caixotes enormes?...

Jacinto sacudiu amargamente os ombros:

-Encalhados, pôr aí, algures, num barracão!... Em Medina, talvez, nessa horrenda Medina. Indiferença das Companhias, inércia do Silvério... enfim a Península, a barbárie!

Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados pôr céu e monte:

-É uma beleza!

O meu Príncipe, depois de um silêncio grave, murmurou, com a face encostada à mão:

-É uma lindeza... E que paz!

Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, talhões de alface, gordas folhas de abóbora rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, de onde já subia tenuemente a névoa de algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão desse lado se encravava em laranjal. E duma fontinha rústica, meio afogada em rosas tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de água.

(continua...)

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