Por Camilo Castelo Branco (1862)
- Quem lhe ensinou essa letra tão triste e bonita? - Ai! - exclamou ela -, não cuidei que estava aí...
Estas cantigas eram as de menina de Chaves.
- Quem era a menina de Chaves?
O padre tomou à sua conta a resposta, e disse:
- Era a namorada dum meu condiscípulo no Seminário de Braga, que morreu de amores por ele no Convento de Sant’Ana, e ele também morreu por ela. Eram ambos de Chaves. Eu fiquei com o papelinho em que a coitada escreveu as coplas que minha sobrinha canta a chorar.
- E está a chorar! - disse eu, vendo-lhe nos olhos espelhado um raio da Lua.
- Não que eu - disse Tomásia entre risonha e lagrimosa - tenho uma pena da criatura!...
- Dela somente? - interrompi.
- E dele, que lá foi procurá-la ao outro mundo.
As lágrimas desta mulher que nome têm se não são a sublime poesia da ternura, que eu ainda agora encontro pela primeira vez!..., disse eu entre mim, de modo que o estômago me não ouvisse. E as cinzas, que foram coração, estremeceram levemente.
VII
Ao amanhecer do dia seguinte ouvi a voz do sargento-mor, que passeava no pomar contíguo à casa.
Desci ao pomar e perguntei-lhe se tinha resolvido seriamente dar-me sua filha.
O velho encostou o queixo às mãos, que assentavam sobre uma bengala alta de cana encostada em marfim, e disse:
- Eu tenho uma só palavra: sou o sargento-mor de Soutelo, cavaleiro professo na Ordem de Cristo desde 1812 e cavaleiro da Ordem da Verdade, filha de Cristo, desde que me conheço. Dou-lhe minha filha, com a condição de que o Sr. Silvestre há-de viver comigo, enquanto eu vivo for; depois, se quiser, leva a mulher para sua casa. Não a doto com isto nem com aquilo. Tudo que eu tenho e tem meus irmãos dela é. O senhor entra aqui mais como filho que como genro. Come, bebe e veste da casa. Os rendimentos da sua aplique-os ao desempenho dela, que, pelos modos, o senhor lá por esse mundo gastou muito e mal. Pagou o tributo: todos o pagam cada um por seu feitio. Eu também as fiz boas, e vi-as fazer piores a meus padres, quando já tinham a cabeça rapada. Agora com águas passadas não mói o moinho. Faça-se homem, e descanse. Mande ao diabo as extravagâncias e os prazeres das cidades. Aqui é que reina a paz e a alegria nas boas consciências. Prosseguiu o sargento-mor até que a filha assomou à janela da cozinha, dizendo:
- Venham daí o almoço.
- O senhor vai hoje ou fica? - perguntou, no caminho para casa, o velho.
- Vou dar as providências necessárias e voltarei, passados vinte dias, para ficar.
- Isso é decidido? É palavra de cavaleiro?
- Não mereço que o respeitável pai de Tomásia me faça essa pergunta.
- Desculpe à minha satisfação estas dúvidas. Boas são as venturas de que a gente duvida, quando as tem já na mão.
E abraçou-me com os olhos húmidos.
Estávamos à mesa. Tomásia, segundo o seu costume, andava da sala para a cozinha, levando e trazendo pratos e iguarias.
O pai mandou-a sentar ao meu lado.
Padre João, meu vizinho da direita, rolou o abdómen para dar lugar à sobrinha.
Tomásia parecia outra no acanhamento e não desfitava os olhos do pai.
- Tu que me queres moça, que olhas tão sisuda para mim? - disse ele. - Ó rapariga, o sangue parece que te quer saltar pela cara! É assim, é assim que eu vi tua mãe há trinta e dois anos. O casamento dela foi tal qual como o teu. Soube-o na véspera do dia, como tu, e eu resolvi-me, de à noite para pela manhã, porque ela virtuosa, trabalhadeira e pura como as estrelas do Céu. Aí tens o teu noivo, Tomásia. Bebamos à saúde do nosso Silvestre!
Saíram do armário sete canecas de louça da Índia com que as saúdes se fizeram.
- São as mesmas que serviram há trinta e dois anos em casa de meu sogro - disse o sargento-mor.
Eu fiz um brinde em termos chãos à minha nova família.
Durante o almoço, Tomásia nunca me esperou um olhar.
Findo o almoço, perguntei por ela para despedir-me, e soube que estava na igreja.
Esperei-a. Entretanto, padre João entregou-me a certidão de idade da sobrinha e pediu-me que no mais breve termo lhe arremetesse a minha para se lerem os banhos.
Voltou Tomásia acelerada porque a foram chamar. Logo que pôde falar-me a sós, tirou do peito um embrulho e deu-mo, pedindo-me que lançasse ao pescoço o que ia dentro do lenço. Despedi-me e abracei-a. Tomásia não quis que outra pessoa me segurasse o estribo quando eu montava.
- Já cuida dele como de coisa sua! - disse o velho a rir, e os padres riram todos.
Depois tornou ela dentro à casa, mandando-me que esperasse um pouquinho, e veio logo com um pequenino alforge.
- É para o caminho - disse ela, atando-os às fivelas da sela.
Dei o último adeus, e Tomásia subiu ao topo de um outeiro donde se avistava grande espaço de estrada, e ali estava acenando-me até que me sumi numa baixa de serra.
Abri o embrulho: era um Agnus-Dei, encastoado em prata. O lenço que o envolvia tinha no centro um coração com muitos aleijões, atravessado por uma flecha que a caprichosa bordadeira deixava ver em todo o seu comprimento, de modo que parecia uma seta grudada ao coração.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.